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A Garota da Pulseira

Justiça ou Vitória?

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio 2019

A Garota da Pulseira” segue a fórmula dos bons filmes de tribunal, sem invencionices ou transgressões de gênero. O cinema dos Estados Unidos transformou essa forma de drama em filão desde que “A Firma” (1993) abriu alas para adaptações de obras de John Grisham nos cinemas – não que o inquestionável “Doze Homens e um Sentença” (1957) e o subestimado “O Vento Será tua Herança” (1960), dentre outros clássicos, não tivessem antes nos transportado para dentro de tribunais. Já a produção francesa, escrita e dirigida por Stéphane Demoustier, opta por atualizar, mesmo que minimamente, as representações e o discurso – crédito total de um roteiro que não explora as condições laboratoriais de construção de suas personagens, deixando ao público mais crítico boa parte desse exercício.

A direção de Demoustier é daquelas que se apresentam para servir ao longa-metragem e não o contrário. Não há adendos estéticos ou coisas do tipo. A sequência inicial é uma das poucas que exploram ambientes externos e mostra a última reunião de paz de uma família na praia. O som do mar parece querer acalmar, ao mesmo tempo que as incontáveis pedras na areia revelam a fase difícil que será encarada quando a Polícia aborda o grupo. Todavia, se há um aspecto que salta aos olhos nessa produção francesa apresentada na Mostra Panorama do Festival do Rio 2019 é a elegância de sua mise-en-scène. Cenários luxuosos, personagens se portando de maneira distinta, com suas falas incisivas. Quase como se ali não estivesse sendo decidido o destino da jovem de dezoito anos Lise (Melissa Guers), acusada de matar a melhor amiga.

Na atualização de representações, “A Garota da Pulseira” destaca o protagonismo feminino em todas as frentes de seu texto. Tanto ré quanto vítima, passando pelas advogadas de acusação e defesa. Ao tratar de questões familiares, o filme mostra um pai empenhando em provar a inocência da filha enquanto a mãe se revela ausente, um pouco indiferente até. Todas as motivações do trio familiar ficam mais claras no ato final, deixando o roteiro de desenvolver as personagens que atuam diretamente no Tribunal, mesmo que elas soem tão promissoras.

Já na atualização de discurso, o longa-metragem vai direto no interessante choque geracional no que se refere à sexualidade e suas manifestações. É difícil para os mais velhos entender que Lise ajuda a amiga a emplacar um relacionamento com um colega de escola ao mesmo tempo que faz sexo com ambos (ou troca prazer, nas suas palavras). Trata-se da mesma fluidez muito bem tratada na crítica de Roberta Mathias sobre o filme “Alice Junior” e que faz parte de um mundo sem rótulos, no qual os detentores do poder jurídico não fazem parte. Por isso o receio de interpretações deturpadas em tudo o que a protagonista possa exprimir.

A atriz Melisaa Guers entrega um bom trabalho, equilibrando bem a mistura de sentimentos de uma pessoa que não consegue mais se portar com nervosismo ou desespero depois de meses de um longo processo onde figura como acusada. Ela parece transitar sempre entre tristeza e irritação, sendo inclusive questionada pelo próprio pai, que ousa ser um psicólogo forense improvisado durante o julgamento. A história ser contada sob sua perspectiva ao mesmo tempo que traz narrativa indutiva nos deixa com a mesma dúvida de pessoas próximas acerca de sua inocência. Porém, “A Garota da Pulseira” não exagera nessa abordagem, evitando emular “Crime e Castigo” ou obras fundamentais com o mesmo objeto.

Como não poderia deixar de ser, o filme se vale de flashbacks, imagens de perícias e câmeras de segurança e testemunhos para construir sua história. Porém, como trata de um caso envolvendo uma adolescente – que responde o processo em liberdade – ainda encontra espaço para tratar um pouco do resquício de revolta juvenil manifestada em face dos pais.

Os momentos de fato inspirados do filme ocorrem quando Lise, cansada de assistir sua vida íntima sendo devassada perante o júri questiona o próprio machismo reproduzido pela advogada de acusação. Analisar os lados em um processo judicial é lidar com a vontade e necessidade de vencer a qualquer custo. É comum a tática de desautorização da vítima – mas aqui ela é uma estrada de mão dupla. Por isso esse duplo julgamento, de duas mulheres nos pólos do caso de assassinato, é o aspecto mais interessante na obra. Com isso, ao atuar em três frentes (drama, thriller e tribunal) “A Garota da Pulseira” se apresenta de uma maneira que funciona, mesmo sem propor aprofundamentos.

 

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