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A Espera de Liz

Jogo de omissão

Por Bernardo Castro

A Espera de Liz

Esta crítica em questão trata de uma obra de suma importância para o cinema brasileiro contemporâneo. Agora na cadeira de direção e assinando como um dos roteiristas, o ator e fotógrafo Bruno Torres, considerado uma das promessas do audiovisual brasileiro – e que também atua em um dos papéis principais, lança “A Espera de Liz”, o primeiro longa-metragem de sua carreira como realizador. O enredo se desenvolve a partir da protagonista Liz, vivida por Simone Iliescu, uma mulher que, de repente, se vê em meio à uma situação dramática: o desaparecimento de seu namorado.

Pouco se é revelado acerca do que acontece, dando margem para que a inquietude das personagens e das situações possa traspassar as telas e ir de encontro ao espectador, que também se vê imerso nesse mistério. A omissão é ferramenta chave para o desenvolvimento da narrativa. Não só nos diálogos pouco expositivos, mas também nos planos, que muitas vezes escondem a ação e as personagens do espectador, provavelmente em uma tentativa de manter o misticismo de “A Espera de Liz”. Do cerne da intrincada trama, é possível extrair a temática da emancipação da mulher na sociedade moderna. Um dos artifícios utilizados pelos responsáveis pela direção de arte é o uso de paleta de cores, que vai se tornando mais vívida ao passo que se acompanha a evolução de Liz, passando de tons de preto acompanhados de cores mórbidas para tons de branco e a presença de algumas cores vibrantes.

As atuações estão longe de serem geniais, mas cumprem com o requisitado. Destaque para Bruno Torres, que nas poucas sequências designadas para desenvolver seu personagem, mostra uma vasta gama de reações e entrega uma boa performance no geral. Destaque também para a protagonista de Simone Iliescu e sua irmã Lara, interpretada por Rosane Mulholland, conhecida do público brasileiro por dar vida à Professora Helena no remake recente da novela Carrossel.

No entanto, tudo de interessante que foi construído durante a primeira metade de “A Espera de Liz” é descartado quando o arco de Miguel, interpretado pelo próprio diretor Bruno Torres, é introduzido. Há uma dissonância nas narrativas e o filme toma outro rumo completamente oposto ao que vinha sendo construído, como se fossem dois filmes parcialmente distintos. As motivações dos personagens se revelam supérfluas à medida que os arcos, que vinham sendo erigidos meticulosamente, culminam em conclusões precipitadas e mal articuladas. Diversos papéis atribuídos não adicionam nada ao contexto da história e recebem tempo de tela desnecessário. Assim, muito do tempo que poderia ser utilizado para a construção gradativa e introdução sutil de elementos essenciais ao desenrolar da trama é desperdiçado em momentos infrutíferos. Em certo momento, dá-se a impressão de que o fio condutor da narrativa seria a interação entre as duas irmãs – ideia que é rapidamente descartada e substituída pelo “segundo filme”.

O cineasta tenta inovar na linguagem e incitar um avanço epistemológico. Porém, é malsucedido na tentativa de subverter a regra primordial do cinema, se perdendo na intenção de omitir as informações tanto nos diálogos quanto nos enquadramentos. A conclusão é apressada com seus atos desproporcionais e o autor, que até então vinha construindo uma narrativa calcada na omissão, parte para a exposição exacerbada no final, indo da ausência quase integral de descrição para a hiper descrição nos momentos derradeiros. Além disso, o epílogo é completamente sem sentido e jogado, não parecendo ter qualquer relação de causal com o resto da obra.

A fotografia, no entanto, surge como um alento ao coração do amante do cinema. Esteticamente deslumbrante, é imprescindível reconhecer o trabalho da direção de fotografia e da direção de arte nesse filme. Ambas são essenciais para a construção narrativa e revelam mais dos personagens do que os diálogos. Das paletas de cores dos ambientes, como dito anteriormente, que são primordiais para tecer os pontos de virada nos arcos de Liz e Miguel, para as paisagens quase etéreas, que despertam para a irrelevância do ser humano em meio à impavidez do relevo. A fotografia de “A Espera de Liz”, cheia de planos sequências, é bem elaborada, alternando brilhantemente entre momentos de câmera fixa e câmera na mão conforme convêm à emoção da cena. O uso de planos detalhe e aproximação da câmera também são usados para gerar tensão e ilustram o bom trabalho estético, mas não mitigam os diversos furos de roteiro.

3 Nota do Crítico 5 1

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