A Escolha

Sem maniqueísmo, no drama

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

Apresentando uma outra face da realidade, menos comum, “A Escolha” nos apresenta um pai que se vê sozinho ao criar sua filha, por abandono da ex-namorada. Por si só, seria interessante acompanhar essa narrativa do ponto de vista mais estrutural da coisa, compreendendo os desdobramentos a partir de uma cultura que comumente vê a figura paterna abandonando seus filhos. Mas a condução parece querer encontrar um caminho médio da forma, mirando um preciosismo dramático que não se completa na tela. 

A direção é assinada por Liina Trishkina, que compreende um lugar de exercício de mediação entre uma espécie de observação dessa projeção da realidade, aliado ao drama de Erik (Reimo Sagor). E é dessa natureza que nasce uma questão para o público, o filme quer tanto se distanciar dessa fórmula maniqueísta do drama da paternidade e do abandono infantil, que soa um exercício de articulação entre um reflexo de discussão e uma lentidão inerente ao material. Ao tentar se manter entre os dois campos, flertando com alguns clichês narrativos, o longa vai se perdendo no caminho, perdendo seu potencial de mergulho no drama pessoal, e cultural, dando espaço pra velha construção de um drama tão lento que vamos perdendo o interesse por ele.

E isso é recorrente no cinema europeu e norte-americano B. Algo como “Lizzie” (2018) sem tensão. Obras que parecem se debruçar tanto para se distanciar do mercado mainstream, buscando um público mais “alternativo” (mas ainda com lucro), que abraça os clichês da grande indústria mas tenta conduzir através de uma forma distinta, que seja mais “reflexiva”. O problema é que manter o espectador nessa narrativa, pode ser um desafio, já que o arrastado tempo passa a consumir as diversas olhadas pro relógio. Pois já vimos essa história antes, embarcamos na esperança de vermos uma lente diferente, mas somos laureados com abandonos de ideias ao longo do projeto. 

Muito do que se vê na construção dos 25-30 minutos iniciais, vai sendo abandonado. Um jogo de câmera bastante marcado (típico do drama europeu), mas que encontra seu lugar no silêncio, na reverberação do drama e na extensão do plano, com o tempo, dá lugar ao drama convencional, onde acompanhamos as buscas do protagonista por dinheiro e uma espécie de “paz”. E além do roteiro excessivamente previsível, uma falta de aproximação, com aquela realidade, pode atingir o público brasileiro, pois o tempo e o espaço de “A Escolha”, estão muito distante de nós. 

Enquanto no Brasil, o subdesenvolvimento faz parte de uma construção que se vê no social e no cultural, na Estônia, Erik, ainda que quebrado financeiramente, possui uma vida bastante confortável se compararmos à nossa. E se algumas questões climáticas, de extremos, possam servir de breve associação, o ponto social, cultural e econômico nos afasta demasiadamente das questões apresentadas no filme. Aliado a esse desarticulação com o público latino, é possível se perder na brutalidade excessiva das atuações. E o adjetivo não se refere à violência presente em Erik, por exemplo, ou em seu irmão, mas na maneira como essa interpretação é dada com uma apatia latente. 

O longa de Liina acaba conseguindo fugir de um maniqueísmo dramático padrão na indústria, um esforço notório da cineasta, mas acaba mergulhando de cabeça na forma padronizada do protótipo de slow cinema, comprando os barulhos, ou a falta de, da linguagem. Esse ceticismo diante da própria imagem e um ritmo que se dá em passo de tartaruga. E como dito, o interesse se perde, na forma e na narrativa. 

“A Escolha” não falha em ser consumido pelo mercado, mas em aliciar-se à outro. E se os comentários tornam-se repetitivos, é porque o longa se assimila ao processo. Um problema é dado, um sofrimento vivido, uma solução aparente, com a questão “com quem eu deixo minha filha”. O romance apresentado em determinado momento surge como uma muleta dramática que encontra seu lugar rapidamente no cerne de Erik e de uma construção maior, mas não conseguir dar luz às diferenças entre essas individualidades no meio social. Quando o faz, solta uma frase de efeito ou outra que transforma tudo em uma superfície bastante frágil. Aliás, esse é o sentimento que grande parte dos espectador terão, uma fragilidade tão presente em tudo, que quando o filme passa a abraçar vilões e heróis, a pieguice vira regra.

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