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A Cor Púrpura

Um remake sem atualização

Por Paula Hong

A Cor Púrpura

Nesta nova adaptação do já clássico homônimo de Alice Walker, o diretor e musicista ganense Blitz Bazawule extrai do talentoso e experiente elenco uma roupagem musical que, atrelada à carregada dramaticidade narrativa, enseja na pomposidade exuberante dos ricos recursos técnicos a retratação da história de Celie (Phylicia Pearl Mpasi, Fantasia Barrino) composta por relações turbulentas e sofridas, mas que inevitavelmente encontra no despertar de breves afetos, forças para a independência e construção de sua identidade. Embora o romance de Walker seja a fonte original das adaptações posteriores, como a realizada por Steven Spielberg em 1985, Bazawaule baseia a sua de “A Cor Púrpura” no musical da Broadway, dirigida por Gary Griffin. A falta de contato com o musical de Griffin não me dá subsídios o suficiente para fazer comparações entre todas as obras, portanto me atenho ao que faz parte do meu repertório.

A história centra-se em Celie, cuja infância finca raízes em traumas familiares causados pelo próprio pai — desde abusos psicológicos, físicos e emocionais, até incesto, controle de seu ir e vir e de letramento — somam-se à perda prematura da mãe, dos filhos e, posteriormente, à separação forçada entre ela e sua irmã, Nettie (Halle Bailey, Ciara), seu último resquício de amor e companheirismo. Celie é entregue pelo pai, ainda nova, a Albert “Mister” Johnson (Colman Domingo), que passa a ser seu marido, sendo transferida de um ambiente hostil a outro onde o isolamento faz com que a casa seja seu núcleo, exercendo nele um acúmulo de papéis — de “esposa”, de madrasta e de dona de casa. 

O contato de Celie com outras mulheres de seu convívio regrado permite ao mesmo tempo aproximação e conflitos, a partir dos quais passa-se a destacar vivências contrárias a dela, formando uma perspectiva que abrange o seu entendimento de como ser e estar no mundo — mesmo que o mundo resuma-se ao Estado da Geórgia do início do século XVIII, nos Estados Unidos. 

Temos Sofia (Danielle Brooks, indicada ao Oscar 2024 de Melhor Atriz Coadjuvante), esposa de Harpo Johnson (Corey Hawkins), filho de Mister. Ela é destemida e por vezes expansiva, sem deixar espaço para passem por cima dela. A vida e o coração de Celie são balançados quando um amor antigo de Mister volta para lá. É Avary, uma cantora cortejada e talentosa que nutre uma carreira relativamente bem-sucedida. Com isso, “A Cor Púrpura” forma um trio de mulheres de personalidades singulares e que, no entanto, se complementam, sobretudo pelo modo como afetam Celie positivamente, tornando-a menos passiva na forma que reage às hostilidades que lhe atingem, como o racismo, machismo e violência doméstica. Celie vai gradualmente se transformando numa mulher que se nutre das parcelas significativas de amor, carinho, cuidado, companheirismo e afetos dessas mulheres. Tanto nesta adaptação quanto na outra, isso é muito bonito de se ver. 

Os números musicais funcionam ora como monólogos internos, ora para sublinhar ou simular tensões e conflitos em contexto de violência nos núcleos familiares e dos diferentes convívios externos a esses núcleos, como no centro da cidade. Eles não necessariamente acrescentam ao avanço dos acontecimentos. Neste quesito, a releitura de 2023 demonstra poucas atualizações no modo com que demonstra esses elementos cinematográficos e carece de certa ousadia no que tange à abordagem da relação sáfica entre Celia e Avary. A sutileza com que retrata a relação das duas, como um sopro na narrativa, como se Avary não fosse um dos motivos pelos quais Celie é terminantemente salva daquele ambiente de violências é, no mínimo, uma escolha que incomoda.     

É inegável que as performances musicais extraem ao máximo da sua graciosidade para trazer um escapismo, uma pausa, rico em fantasia que funciona como um respiro da grande carga dramática inerente à história. Uma das mais belas é quando Celie canta seus sentimentos por Avary num cenário bastante lúdico e simbólico do que se passa por dentro dela, uma mulher quieta, arisca e cautelosa. Nesses momentos, a fotografia sofre uma mudança um tanto quanto drástica, o que incomoda um pouco, mas demarcam os conflitos internos e externo das personagens. Por vezes, esses momentos musicais oferecem outro tipo de tratamento que o da dramaticidade convencional, mas às vezes não são bem encaixados, às vezes não acrescentam e sofrem pela falta de desenvolvimento.  

Em “A Cor Púrpura”, a impressão da escolha deliberada do diretor por não dilatar um momento de sofrimento ou violência dá lugar à fabricação da suspensão dramática através de coreografias e músicas. Uma pena que, apesar da construção de cenários elaborados dentro de uma tecnicidade coerente com o que temos hoje (sobretudo em relação à adaptação de 1985) e que por vezes impressiona, ainda assim não é o suficiente para trazer algum elemento que se destaque das obras — tanto literária quanto cinematográfica — anteriores.

2 Nota do Crítico 5 1

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