A Calmaria Depois da Tempestade

As projeções de dois cinemas

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

A figura paterna, as memórias, os registros e o cinema se convergem em “A Calmaria Depois da Tempestade”, de Mercedes Gaviria, que lembra de seu pai com algumas lacunas que a maturidade jogou luz. Transitando entre alguns materiais antigos e a filmagem do novo longa de seu pai, Víctor Gaviria, a cineasta passa por um processo de descoberta familiar que pode gerar uma ruptura da percepção paterna no presente ou mesmo de como via a figura no passado.

Sem saber exatamente como vai se encerrar o projeto, ela se lança à gravação procurando por algo, que pode não ser uma resposta, mas é o caráter turvo que guia a maior parte da projeção aqui. Por essa razão, é possível perceber que muita coisa não possui um propósito definido e por muitas vezes o espectador não se sente atraído por nada em particular, já que a subjetividade se une ao processo. Mas na segunda metade é possível enxergar alguns desenhos tornando-se mais sólidos, enquanto a vida cinematográfica passa a ser desvelada nessa própria relação, que é ao mesmo tempo interna como familiar. E é nesse jogo das representações que “A Calmaria Depois da Tempestade” procura se fixar, tanto no olhar para o espelho, que reflete as próprias mudanças ao longo dos anos, dos dois lados, como a permanência de certas características que foram ignoradas, ou despercebidas. Novamente, cabe ao espectador um engajamento nessa descoberta, que se não ocorrer, fica difícil se manter acordado diante de algo que nunca possui um sentido pleno para o exterior.

Essa experiência se torna cansativa, já que o próprio objeto cinematográfico não parece ter um fim definido. Mercedes até procura contextualizar nessa procura, uma certa exposição das intenções, enquanto passa a mesclar esses diferentes materiais, o problema é que as coisas parecem mais soltas que racionais. A maneira que essas imagens vão se encontrando não são claras e tudo soa muito desconexo, até mesmo quando ela fala do hábito da gravação, ou da diferença de perspectiva familiar quanto ao próprio registro, esse arquivo não é sólido o suficiente para que possamos tomar interesse pela imagem em si. Nesse jogo de tempos, o psicológico fala mais alto que o próprio espaço e as confissões passam a se acumular diante da câmera, ou na voz em off, que traça a facilidade do pai de gravar imagens violentas e da dificuldade com situações mais dramáticas. Porém, a unidade aqui é criar uma meta de projeções internas, em tantas frentes distintas, que não podemos acusar o filme de uma superficialidade programática. Pelo contrário, quanto mais “A Calmaria Depois da Tempestade” avança, e menos concreto fica o fim, a obra ganha uma dependência multifacetada nessas próprias relações. Está claro que, em alguma medida, acaba se tornando uma cineterapia mas não faz a coisa toda se perder na interiorização reacionária.

Durante o Olhar de Cinema, algumas exibições podem ser comparadas ao que Mercedes faz, o próprio “Estilhaços” possui alguma semelhança nesse trato do registro pessoal e da memória evocada pela imagem, a maior diferença aqui é existem acontecimentos particulares nos dois materiais que se diferem na motivação desse retorno. Ambos são introspectivos, porém um é capaz de criar uma discussão mais material, o outro se atém ao psiquismo dessa produção e dos reflexos. São casos interessantes para serem analisados como questões não resolvidas de um passado, com o imbricamento cultural e divergência de classes (quando colocados lado a lado).

“A Calmaria Depois da Tempestade” pode ser um prato cheio na discussão em torno da imagem, de um caráter psicológico e dessa restauração de uma imagem/percepção. Vai acabar caindo em academicismos estruturais, como o documentário se propõe nesta ata de um processo particular sem o todo à frente, mas pode ser uma surpresa para quem procura uma experiência de catarses subjetivas.

Trailer

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