A Ausência Que Seremos

Colômbia, uma nação apesar de si mesma

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2020

“A Ausência Que Seremos”, película que o espanhol Fernando Trueba dirigiu em 2020, mergulha em uma tragédia particular – o assassinato do médico colombiano Héctor Abad Gómez, em Medellín, 1987 – imersa na década mais trágica da história dessa nação vibrante, mas sofrida: Colômbia, apesar de si mesma (título de um esplêndido livro sobre a formação sociopolítica do país, escrito por um “colombianista”, David Bushnell). Estereótipos latino-americanos não cabem aqui: nunca houve uma ditadura, militar ou não, na Colômbia, mas a violência política supera, em muito, outras paragens nesse continente que nos contém.

Para dar uma ideia: entre 1984 e 2002, pelo menos 4.153 pessoas ligadas à “União Patriótica”, frente ampla de esquerda à qual pertencia Hector Abad, foram assassinadas, sequestradas ou desapareceram; entre elas, dois candidatos presidenciais, 5 deputados federais, 11 deputados, 109 vereadores, vários ex-vereadores, 8 prefeitos em exercício, 8 ex-prefeitos e milhares de militantes. Muitos dos crimes permanecem sem solução até hoje, como o do médico Abad; os responsáveis são ligados a grupos paramilitares, integrantes da Força Pública e/ou traficantes de drogas. Medellín, conhecida como a “cidade da eterna primavera”, devido ao seu clima ameno, foi palco de boa parte desses crimes, mas não de todos: a Colômbia é um vasto país, de geografia complexa, populoso e diverso regionalmente. Esses números referem-se à “União Patriótica” apenas, a violência atingiu os mais variados estratos políticos, sem falar na população em geral – e as estatísticas, se tomadas em seu aspecto geral, crescem em espiral. Foi na Colômbia que um dos termos mais perversos da ciência política foi cunhado: narcoterrorismo. Se você estivesse no lugar errado, na hora errada – o que era uma probabilidade razoável, se vivesse em uma grande cidade – poderia ser vítima de carros-bomba, tática suicida que o glamourizado capo Pablo Escobar lançou no final dos seus dias, com o objetivo – bem, com o desejo – de simplesmente aterrorizar cidadãos e cidadãs.

Na narrativa de “A Ausência Que Seremos” – extraída de livro homônimo do filho de Abad, um respeitado jornalista e escritor, Héctor Abad Faciolince – esse pano de fundo diabólico praticamente não aparece. Transcorremos três quartos do filme imersos no cotidiano de uma família abarrotada de afeto, chefiada por um médico sanitarista liberal e emotivo – encarnado por Javier Câmara, ator de filmes sarcástico-transgressores de Almodóvar, em atuação impecável – como se a ebulição interna que se imiscuía na sociedade colombiana fosse imperceptível, na superfície da vida familiar de um professor universitário casado com a sobrinha do Arcebispo de Medellín. Os arroubos de consciência social do sanitarista Hector Abad são descritos a partir do ponto de vista do filho, uma criança cujo limite de mau comportamento foi jogar uma pedra na casa do vizinho judeu. As ações de profilaxia social – visitar favelas para constatar a precariedade do saneamento – se mesclam com situações familiares pitorescas, irmãs adolescentes, pequenas sugestões de namoro, até uma freira ortodoxa que funciona como babá. A Colômbia, dizem os céticos, é o país do Sagrado Coração de Jesus: mas o médico, de formação científica, fica longe de tudo isso; ele é cristão na medida em que for capaz de agir concretamente para melhorar a vida das pessoas. O idílio familiar é rompido com a doença de Marta, a filha que toca violão: e é o ponto de virada do filme e do casal, obscurecendo a compreensão do mundo, das palavras e das coisas do menino-narrador.

Para Fernando Trueba, a questão era evitar os extremos: “Eu não queria fazer um filme político ou piegas: queria que tivesse a personalidade da pessoa que está sendo retratada.” O roteiro, adaptação de uma biografia naturalmente impregnada de toda essa atmosfera, foi escrito pelo irmão do diretor – e acertou. A aposentadoria compulsória do médico Abad na Universidade é o presságio que introduz a volátil variável política na narrativa, apresentada como uma evolução do processo de conscientização do personagem – candidatar-se à Prefeitura de Medellín é uma consequência inevitável. É a partir desse momento que as fissuras começam a se fazer visíveis no espaço idílico familiar: existe uma violência monstruosa lá fora, dá para ver da janela do carro quando o Dr. Abad leva seus filhos menores de volta para casa. Uma bomba explodiu no meio da rua, cheia de transeuntes. Estamos em 1987, o terror está espetacularizado, sicários-assassinos de moto por toda a parte. Ninguém sabe quem mandou matar o médico: uma versão fantasiosa, contada por Don Berna – traficante de drogas e alto dirigente paramilitar – é que Abad tornou-se alvo porque foi associado ao EPL, “Ejército Popular de Liberación”, grupo de guerrilheiros inicialmente ligados ao Partido Comunista colombiano, fundado em 1967. O assassino teria sido Carlos Castaño, um temível líder paramilitar que desapareceu da face da terra em 2004, e que ninguém garante se está vivo ou morto.

E ninguém também acreditou na versão de Don Berna. No bolso de Hector Abad, foi encontrado um fragmento do poema “Epitáfio”, de Jorge Luis Borges, que inspirou o filme, “A Ausência Que Seremos”:

Já somos o esquecimento que seremos.

A poeira elementar que nos ignora

e o que era o Adão vermelho, e o que é agora,

todos os homens, e isso não veremos.

Trailer

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