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A Alegria é a Prova dos Nove

Ciclos e reciclagens

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2023

A Alegria é a Prova dos Nove

Em alguma medida, o cinema da Helena Ignez é um esforço que visa compreender o presente, enquanto exorciza os fantasmas do passado. “ A Alegria é a Prova dos Nove” soa como um reflexo direto de outras obras da cineasta, ou uma nova síntese das temáticas que trabalhou ao longo da carreira. Aqui, novamente, o passado e o presente são tão opressores quanto, mas em seu novo longa, Helena explora uma representação concreta da ressonância desse trauma, o estupro, os militares e as consequências desse ato de violência ao longo dos anos. 

De alguma forma, a ironia e o deboche possuem um papel importante na construção de uma narrativa que não possui intenções dramáticas lineares, mas sim uma composição de fragmentos que se complementam pelo caráter reflexivo das temáticas. Seja debatendo as heranças autoritárias no Brasil ou questões relacionadas à corpos, poéticas, liberdades e sexualidades, “A Alegria é a Prova dos Nove” procura sondar o estilo rebelde do cinema setentista, sem precisar fazer referências constantes ao mesmo. Porém, algumas coisas não funcionam como antes. Existe um desarranjo entre a fotografia, assinada por Toni Nogueira, Flora Dias, Mirrah da Silva, Matheus da Rocha Pereira e Lucas Eskinazi, e a montagem, assinada por Sergio Gag, que cria um desconforto permanente. Se na película esse descompasso era visto como uma digressão, na imagem digital as coisas soam mais burocráticas, repetitivas e até exaustivas. 

E essa é uma característica do filme, uma constante retomada ao centro de seu debate, por vias que não funcionam plenamente. Seja pela representação das cenas rocambolescas, ou pela necessidade de sempre situar a discussão em torno das liberdades sexuais, corpos e citações provocativas, o longa não parece encontrar um tom próprio ao longo da projeção. Um exemplo disso é a cena em que três personagens passeiam no parque, debatendo o poliamor e o sexo, e em um determinado momento, depois de algumas considerações em torno do tema, uma citação é feita pelo homem, que corta o assunto e uma espécie de performance se inicia em torno desta citação, em caráter festivo e teatral, sobre a necessidade de “reinvenção do amor”. Esse recorte é uma espécie de síntese da obra, que não sabe exatamente como levar adiante seus debates e acaba caindo em um lugar de conforto, uma espécie de memorial de pequenas e superficiais críticas à sociedade, seu individualismo e uma “corrosão” promovida pelo capitalismo. 

Nada é particularmente novo, nem precisa ser, mas a sensação é que já houve uma saturação dessa reciclagem formal e temática, e que procurar uma atualização a partir de determinadas palavras-chave e temáticas contemporâneas, só atrasa um processo que está repleto de possibilidades interessantes, mas que nunca atinge seu potencial. 

Em uma das melhores cenas de “A Alegria é a Prova dos Nove”, um homem imita um porco e realiza uma performance que discute o animalesco, o corpo e o ser social. O enquadramento mais fechado no personagem, acompanhando parte de seus movimentos e procurando ângulos que possam deformar sua silhueta, são capazes de criar uma tensão na imagem que é fantástica, justamente pela oposição ao restante do filme, mas quando essa força da cena é interrompida para que o personagem repita o mesmo movimento de todas as cenas do projeto, a coisa torna a ficar enfadonha, pois parece um ciclo que deve ser cumprido rigorosamente. É uma espécie de muleta, encaixar uma cena sobre/de sexo, para criar certas reflexões sobre o corpo e pontos limítrofes de uma certa “relação social” durante o ato.

Mas nem tudo patina em “A Alegria é a Prova dos Nove” algumas sacadas históricas dão o poder da síntese de se trabalhar com fragmentos, como é o caso do personagem do Negro Leo e Ney Matogrosso, em caráter de reconstrução e síntese, respectivamente. Uma série de concepções críticas no que diz respeito ao cristianismo, são bem elaboradas, na medida que não se limita à uma crítica institucional, mas o apontamento das próprias contradições, morais e/ou éticas. E, ultimamente, a Helena Ignez tem sido uma cineasta que trabalha muito dentro dessas perspectivas, a contradição e a condição do passado e do presente serem igualmente opressores. Porém, desta vez a totalidade não funciona e um certo anacronismo pode ser argumentado. 

2 Nota do Crítico 5 1

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