7 Livros cinematográficos que ajudam a compreender 2020

No Dia do Leitor, obras literárias conversam com a sétima arte e fornecem um caminho para compreender 2020

Por Fabricio Duque

Nós entramos em 2021 recebendo a rebarba de 2020. Consequência mais que lógica e normal. O ano passado representou tragédias fatais de vidas expostas à vulnerabilidade de um vírus letal, o coronavírus, mas também um princípio longíquo de clareza insight-etérea. A Humanidade recebeu a oferta para se adaptar, se reinventar (a palavra de ordem, quase um mantra social) e se desconstruir de tradições e da ideia de liberdade. Evocou-se a meditação e a conversa online, provando mesmo que o ser é intrinsecamente externo e que não consegue mesmo ficar sozinho com sua própria existência. O outro é uma necessidade, receptor substitutivo de carências e dependências. Contudo, assim como o cinema e sua arte salvaram consciências da auto-destruição, a literatura estimulou o processo inverso: de reconexão introspectiva. Ao ler uma obra, nós podemos deixar que nossa imaginação viaje e se refugie longe de nossos medos cotidianos. É uma cápsula de fuga. Que não só protege da loucura, mas que treina mais nossa mente, expandindo nossas sinapses de conhecimento.

Hoje, quinta-feira, 07 de janeiro, é o Dia Nacional do Leitor. E nada melhor que comemorá-lo com uma lista de livros super cinematográficos que podem ajudar a entender o fatídico ano de 2020. O Dia do Leitor “foi criado em homenagem à fundação do jornal cearense “O Povo”, criado em 7 de janeiro de 1928, pelo poeta e jornalista Demócrito Rocha. Neste jornal, que ficou conhecido por combater a corrupção e divulgar fatos políticos, existia um suplemento chamado “Maracajá” que se tornou um espaço de divulgação do movimento modernista literário cearense na época. As obras de Demócrito Rocha são de grande importância para a cultural regional. O autor pertenceu à Academia Cearense de Letras, enquanto era vivo”, explica o site Calendar Brasil. Então vamos à lista. Sete livros. Sete faces. Sétima arte. Sétimo dia. E o descanso. Uma curadoria pensada pela literatura com olhos cinéfilos, procuradores de simbolismos para embasar e tentar definir o ano cabalístico que acabou de acabar. Não há ordem de importância na sequência organizada abaixo!

7 LIVROS PARA TENTAR ENTENDER 2020

ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ

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Após a cegueira branca de “Ensaio Sobre a Cegueira” (livro transformado em filme por Fernando Meirelles), o escritor português José Saramago tece uma fábula social ao abordar pessoas que “acordaram” do transe e foram “presenteadas” com a Lucidez. Benção ou dádiva? Os ignorantes são mais felizes? As eleições de 2020 aconteceram mesmo com o nível vermelho de mortes. “Ensaio Sobre a Lucidez” é uma obra essencial  para compreender o que torna um humano em indivíduo. Nesta pandemia, alguns muitos, ficantes protegidos em suas casas, também receberam uma carga de lucidez e a visão não poderia ser mais desoladora. A ação de união (e a maioria dos votos brancos) e de um novo ideal naturalizado gerou medo nos detentores de poder. Os governantes, sentindo-se ameaçados, trataram de agir em nome da ordem, espiando, mentindo, torturando, explodindo, desesperando (semelhanças com a realidade não é mera coincidência). Alguns que viveram os horrores da cegueira branca, novamente sofreram. Os governantes, preocupados em salvar a própria pele, em garantir o poder, não perceberam que a cegueira branca de outrora, demonstrativo de que há muito o homem estava cego, tinham paralelo com o voto branco de agora, indicativo de que a população não perdera a lucidez.

7 Livros cinematográficos que ajudam a compreender 2020

Eduardo Coutinho

SETE FACES DE EDUARDO COUTINHO

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O livro sobre o cineasta-documentarista brasileiro ajuda a entender a idiotização de um povo. E a aceitá-la como característica intrínseca. Como seria um novo filme de Coutinho sobre a pandemia, esta que expos a incapacidade do indivíduo em abrir mão da própria diversão casual para salvar-proteger com humanismo não individualizado seu próximo? o jornalista Carlos Alberto Mattos nos oferece uma análise crítica que entrelaça vida e obra do cineasta. Observando as transversalidades e as conexões no tempo da obra completa – empreitada inédita -, Mattos revela as diferentes faces do realizador. Coutinho aparece aqui como diretor de teatro e cinema, roteirista, ator, crítico e até autor de horóscopo. Versão atualizada e ampliada de Eduardo Coutinho: o homem que caiu na real – lançado em Portugal em 2003 -, o novo livro é baseado na consulta aos principais colaboradores históricos, obras e textos mais importantes escritos sobre Coutinho, assim como ao acervo pessoal do cineasta, conservado no Centro de Criação de Imagem Popular (CECIP) e hoje aos cuidados do Instituto Moreira Salles (IMS). Para esta obra foram examinados seus cadernos de anotações manuscritas, brochuras de decupagem, projetos inconclusos e reelaborados, documentação de pesquisa de personagens, diários de filmagem, notas de montagem, correspondência etc. Muitos desses materiais ainda inéditos aos olhos do público. Dessa imersão no universo de Eduardo Coutinho nasce uma visão panorâmica das circunstâncias que forjaram cada um de seus filmes, das escolhas e processos que os construíram, assim como dos saberes que foram sendo acrescentados à consciência do documentário brasileiro contemporâneo. Também vem à tona, pela primeira vez num livro, a abordagem das manias, das obsessões e dos traços de personalidade que influenciavam diretamente os métodos de trabalho e a preferência de Eduardo Coutinho pelo cinema de encontro.

7 Livros cinematográficos que ajudam a compreender 2020

O DIA EM QUE A POESIA DERROTOU UM DITADOR

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Um livro obrigatório em 2020, porque não só luta para estimular um diálogo, ouvir, processar e formular opiniões, tampouco só por ter sido base para o filme “No”, de Pablo Larraín, mas principalmente por fomentar a simplicidade, a memória e a resistência afirmativa de que o mal pode ser vencido pelo bem com inteligência, humor, persistência e com o mínimo de sorte-voz. Nico testemunha seu pai, o professor Santos, ser detido pela polícia do regime militar chileno. Enquanto isso, o pai de sua namorada, o publicitário Adrián Bettini, assume a direção da campanha televisiva contra a reeleição do general Augusto Pinochet. Enquanto Nico procura notícias sobre o paradeiro do pai, Adrián tenta convencer uma nação de que vale a pena lutar pela democracia. Antonio Skármeta, um dos principais autores chilenos das últimas décadas, tece uma narrativa impactante sobre a relação entre pais e filhos em momentos difíceis da história e sobre como a alegria conseguiu devolver as cores a um país silenciado. Leia também a crítica do filme AQUI!

7 Livros cinematográficos que ajudam a compreender 2020

NOVAS FRONTEIRAS DO DOCUMENTÁRIO: ENTRE A FACTUALIDADE E A FICCIONALIDADE

Para comprar: e-book por R$ 17,91 na Amazon

O documentário e o cinema brasileiro nunca foram tão pop. O ano de 2020 trouxe aos holofotes a importância de histórias documentadas e fabulações do real. As fronteiras também foram “destruídas”, fazendo assim a união perfeita entre ficção, fato e realidade. O que é um e outro já não tem mais necessidade de explicação. Por dez entrevista, o jornalista Piero Sbragia, traçou uma arqueologia do documentário. Sem a pretensão de ser um manual cinematográfico, Novas Fronteiras do Documentário: Entre a Factualidade e a Ficcionalidade é uma ferramenta para fugir dos dogmas que limitam o processo criativo. Como dizia o poeta Manoel de Barros, precisamos transver o mundo para transfigurar a realidade. Piero Sbragia discute o documentário contemporâneo como obra que rompe a divisão rígida entre factual e ficcional. Apresenta também um panorama sobre o documentário produzido no Século XXI, e amplia a obra com 10 entrevistas inéditas e exclusivas de documentaristas brasileiros revolucionários e provocadores da produção subjetiva. Temos aqui um encontro que desconcerta para ressignificar.

7 Livros cinematográficos que ajudam a compreender 2020

SUL DA FRONTEIRA, OESTE DO SOL

Para comprar: livro kit físico por R$ 62,90 na TAG

A curadoria de julho de 2020 da TAG não poderia ter escolhido livro melhor do escritor Haruki Murakami para representar o caos de nossas existências no ápice da pandemia. Isso porque a obra é sobre solidão e sobre simplicidade. E de como conviver plenamente dentro de nós mesmos, controlando os medos, aceitando os demônios e se resignando que o futuro é apenas uma ilusão social. O livro “Sul da fronteira, oeste do sol” foi publicado originalmente em 1992 e tem seu nome baseado na música “South of the border”, de Nat King Cole. A trama acompanha e história de Hajime, jovem nascido no Japão pós-guerra que leva uma vida ordinária como revisor de livros didáticos. Certo dia, caminhando pelas ruas de Tóquio, ele avista Shimamoto, ex-namorada dos tempos de escola. Hajime decide segui-la, mas a mulher o despista ao entrar em um táxi. Logo depois, ele é abordado por um homem desconhecido que lhe entrega um pacote cheio de dinheiro e o ameaça para que não a siga nunca mais.

7 Livros cinematográficos que ajudam a compreender 2020

Candango

CANDANGO: MEMÓRIAS DO FESTIVAL, VOL 1

Para comprar: livro físico por R$ 50,00 na Amazon

Outro acontecimento marcante foi o lançamento do filme “Candango: Memórias do Festival”, de Lino Meireles, sobre os cinquenta anos do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O livro representa uma arqueologia cinéfila por entrevistas e curiosidades sobre este festival brasiliense mais politizado do Brasil. “Candango: Memórias do Festival” conta uma versão afetiva de mais de 50 anos de história do cinema brasileiro. Atores, diretores, organizadores e outros artistas relatam suas memórias em um formato ainda pouco usado na literatura jornalística: a história oral. Contar a história do Festival, com mais de 50 anos, significa contar a história do cinema nacional e da luta cultural contra a ditadura. Leia também a crítica do filme AQUI!

7 Livros cinematográficos que ajudam a compreender 2020

2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO

Para comprar: e-book por R$ 30,39 na Amazon

Há livros que nunca ficam datados e que nunca perdem sua distopia-metafórica. “2001”, escrita por Arthur C. Clarke, base para o filme homônimo de Stanley Kubrick, profetiza solidão, loucura, aprisionamento, existência, ambição pelo conhecimento e a “escravidão humana” (ou proteção incondicional de impedir o ser humano de se comportar como um ser humano) pelas máquinas. Praticamente o ano de 2020, que nos tornou astronautas de nós mesmos. No alvorecer da humanidade, a fome e os predadores já ameaçavam de extinção a incipiente espécie humana. Até que a chegada de um objeto impossível, além da compreensão das mentes limitadas do homem pré-histórico, prenunciasse o caminho da evolução. Milhões de anos depois, a descoberta de um enigmático monolito soterrado na Lua deixa os cientistas perplexos. Para investigar esse mistério, a Terra envia para o espaço uma nave tripulada por uma equipe altamente treinada, assistida por um computador autoconsciente. Do passado distante ao ano de 2001, da África a Júpiter, dos homens-macacos à inteligência artificial HAL 9000, penetre a visão de um futuro que poderia ter sido, uma sofisticada alegoria sobre a história do mundo. Até mesmo Caetano Veloso, na live de Natal, trocou 2021 por 2001. Outra entropia de ficção científica entre mundos paralelos? Leia também a crítica do filme AQUI!

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