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5 Casas

De si para todos

Por Ciro Araujo

Durante o Festival Cine Ceará 2021

5 Casas

Começa com uma narração introspectiva. O som dela é grave, abafado. Uma melancolia que percorre imagens. “5 Casas” é o retrato de uma nostalgia de escavação. O filme de Bruno Gularte Barreto percorre o interesse próprio do cineasta acima de tudo para produzir um filme, uma necessidade de falar do “eu” através dos outros. A infância e lembrança, todas que remetem ao passado, ao desejo de voltar. Chega a ser curioso como esse interesse faz do autor partir a produzir o seu desejo e dar voz também aqueles que a lhe interessam.

Uma caixa de fósforos encontrada. Dali, até o luto da mãe, para consequências e arrependimentos da vida. Barreto deseja cativar a quem assiste o longa-metragem através da criação dessas visões nostálgicas, um dispositivo produtor tão interessante. Apesar disso, é de se admitir que o documentário apresentado possua o que pode se considerar como uma atividade tão turva. Encontrar, pois bem, os vários elementos de seu passado acaba surgindo como uma busca tão sem sentido, tão desconexa. Traduz-se assim a jornada do eu em uma forma de amparar sua inquietude, também encontrada em um amigo de juventude homossexual, através da intolerância sofrida. Uma espécie de conversa noturna sob uma garrafa de vinho, conversando sobre as amarguras da vida que entrelaçam através do desconhecer.

“5 Casas” acredita muito em uma poética imagética. Para uso assim, é olhado através da cidade de Dom Pedrito, Rio Grande do Sul. Em um certo momento, talvez de seu maior brilhantismo, Bruno Gularte reproduz uma cena tão marcante em diversos documentários. Câmera aberta, personagem centralizado, parado. Uma escultura no tempo de gente. Gente comum, por sinal. E assim é o que forma número e interesse na visão estética do documentário do cineasta. As imagens são individuais, pessoais e que possuem maior acerto. Apesar disso, a todo o momento esse procurar do autor é uma espécie de altos e baixos, um calcanhar de Aquiles que se permitiu. Como traduzir uma redescoberta de forma honesta? Mas ao mesmo tempo se comunicar entre espectador, tela e obra? São perguntas que se formam através do tempo, um tempo até relativamente curto mas que se desdobra.

A construção de uma cidade como protagonista se forma, apesar. Ruas cheias de barro, takes de drones e por fim, personagens. Filme de memória, também, por coincidência. Essa mescla é precisa, e reproduz na verdade um estado clínico que se encontra. Fotos e documentos enquanto se relembra do próprio passado e liga ao município. Agrotóxicos, uma questão tão importante no Brasil nas localidades rurais. O crescimento, um problema imobiliário que é crescente no interior do país. A religião, por sinal, também como crescente questão, em especial como afeta a dinâmica social. É como se existisse uma conexão que Bruno faz em sua obra, uma trindade. Agropecuária, casa e religiosidade. Todas questões que trabalham ao redor do dinamismo de uma cidade que não sabe mais para onde crescer, onde o passado é o que remete muitos que antes saíram dali.

De qualquer forma, “5 Casas” tem um apreço muito especial pelo olhar. É claro que o diretor decide aproveitar do formato voyeur da câmera como uma máquina do tempo. Um trabalho imaginário muito interessante. Compõe aquela trindade anterior, para finalizar nessa existência do número cinco. Uma expressão muito forte em como representar universalmente uma situação social nacional. Talvez seja aí que a busca de Barreto cria um direcionamento mais forte e saia de sua turgidez para criar corpo. Demora para encontrar, mas quando entende-se, é quase um poesia com rima, um espelho, ou até um template, um padrão para um país tão melancólico. Não por espírito, mas por tantos problemas. E bem, chega a ser irônico pois as imagens do filme são resultados de décadas dessas constâncias e repetições em uma série de quase desgraças. O eu torna-se não tão eu, vira os outros. Suas imagens singulares criam motivo, explicação. É uma metamorfose muito melhor para se entender a obra que Bruno sacrifica sua própria dor (dor e dolorosa, palavras-chave no documentário) à mercê do espectador, retirando a regionalização reproduzida durante sua duração de pouco mais de oitenta e oito minutos de duração. A propósito, durante o texto muito foi se falado o nome do diretor, o que talvez indique realmente a transparência do “eu”. Interesse, realmente.

3 Nota do Crítico 5 1

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