30 Anos Blues30 Anos Blues

O cinema afrontoso de Andradina Azevedo e Dida Andrade

Por Marcelo Velloso

Durante o Festival de Cinema de Gramado 2019

O filme “30 anos Blues” de Andradina Azevedo e Dida Andrade traz os dilemas dos trinta anos tendo como ponto de partida o reencontro entre dois amigos, André e Diego. Essa idade certamente marca e traz à tona questões como relacionamento se esfriando, frustrações profissionais, questões do casamento e decisão de ter filhos ou não, dentre outras. Tudo isso está no filme que foi rodado totalmente na cidade de São Paulo e passa por diversas locações.

A dupla de diretores de “Bruta Flor do Querer“(2013), além de dirigir, integram o elenco de “30 anos Blues”(2017), Andradina Azevedo interpreta André e Dida Andrade vive Diego. De volta pra sua cidade, Diego vai morar com os pais e encontra-se desempregado, mas tem planos de mudar a sua realidade, alugar um apartamento, morar só… Esse pelo menos é o seu discurso. Ele reencontra seu amigo André (Andradina Azevedo) que por sua vez vive um relacionamento desgastado com Julia, interpretada por Carol Melgaço.

“30 anos Blues” já começa com uma clara referência, quando uma cena mostra André e Julia deitados nus enquanto dialogam, como em “O Desprezo“(1963) de Godard, em que Brigitte Bardot e Charlton Heston conversam deitados da mesma forma. A partir daí, enquanto André e Diego se deparam com suas respectivas crises, entregam-se a situações que funcionam como uma forma de fulga, uma válvula de escape e aí entra em cena a farra, o sexo com outras mulheres e as drogas.

Tanto André quanto Diego são personagens imaturos que em momento algum encaram seus problemas buscando uma solução plausível. Essa postura inconsequente acaba incomodando bastante durante o filme e criando certa aversão em relação aos dois. Enquanto a masculinidade é mostrada de forma tóxica, por figuras displicentes que protagonizam o filme, as mulheres são oprimidas em diversos momentos do filme, culminando numa cena em que André quebra um computador que Julia lhe deu de presente.

Outro momento desconfortável é ver a personagem de Júlia reclamando sobre se sentir incomodada por ser rotulada por vir de família nobre. Dentro daquele contexto teriam inúmeros conflitos mais interessantes a serem tratados, mas que são ignorados pra um mostrar um festival libidinoso extraconjugal de André. Os desconfortos em parecem ser intencionais e a dupla de diretores não poupa esforços para apresentar um cinema afrontoso, seja com o uso da nudez aparentemente gratuita, seja quando no filme exibe um vídeo em que um acadêmico faz uma crítica ao modelo nacional de produção cinematográfica.

“30 anos Blues” tem diversos problemas e mostra muita fragilidade técnica, de roteiro, de ritmo e de fotografia. Num momento em que Julia (Carol Melgaço) está no hospital visitando uma criança que acabou de nascer, a luz que é utilizada na cena é vermelha, totalmente fora de contexto com a ocasião.

O outro conflito do filme que envolve os personagens Diego e Helena (Julia Ianina). Diego que já teve uma história com a moça no passado descobre num reencontro da sua galera que ela está noutro relacionamento, mas ainda assim voltam a se envolver.

Algumas atuações são bem frágeis e os diálogos nos dão a sensação de improviso de texto. O que poderia até funcionar, contribuindo para passar mais naturalidade por parte dos atores, acaba nos dando a sensação de que assistimos a atores perdidos em cena sem saberem o que falar, por vezes gesticulando em excesso. Talvez até por termos diretores que são atores e que estão muitas das vezes em cena, falta a direção, falta uma visão de fora. As atrizes Carol Melgaço e Julia Ianina se destacam na interpretação.

A divisão do filme em quatro blocos é outro ponto negativo. Essa opção acaba fragilizando a montagem, uma vez que não há mudança de temas relevante, passagem de tempo ou outro motivo que justifique. A trilha sonora original é um ponto positivo do filme.

“30 anos Blues” tem suas fragilidades, aborda um assunto interessante que abrange todos nós e por isso acaba que nos sentimos interessados. O filme desperta uma vontade de se ver representado ou ao menos de ter aquele momento de identificação. Ao mesmo tempo, a postura dos personagens centrais acaba gerando um distanciamento, uma repulsa.

De qualquer forma, Andradina Azevedo e Dida Andrade são corajosos em suas experimentações. Imprimem no segundo filme deles um estilo diferenciado, uma visão artística que proporciona sim momentos interessantes. Há uma vontade de realizar e sobretudo com certa liberdade artística, o que está visível no filme.

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