100 Quilos de Estrelas

O Espaço e a Alternativa ao Sufocamento

Por Daniel Guimarães

A lista de obras que retratam, através de ficções científicas espaciais, o vazio e o desconhecido acima para pensar sobre nós mesmos, embaixo, é extensa. Por vezes, o espaço como uma imensidão a ser explorada pode contar mais sobre a natureza ou a experiência humana do que um drama psicológico. Embora passe longe do gênero, “100 Quilos de Estrelas” busca justamente a espacialidade do que há acima como fuga do sufocamento social.

Escrito e dirigido por Marie-Sophie Chambon, o longa-metragem conta o momento de vida da jovem Lois (Laure Duchêne), que deseja se tornar uma astronauta, mas batalha contra seu próprio metabolismo, pesando acima do possível para a profissão. Dentro disso, de certa forma, o poético e a corporalidade se afloram dentro da espacialidade da narrativa. Enquadramentos iniciais são sempre deslocados para a claustrofobia. Essa, não necessariamente se encontra somente em locais confinados, mas de sensações da protagonista perante os outros. O jogo de corpos, alternado com composições dos astros, criam uma boa atmosfera para explorar o que a própria imagem nos oferece no contemplativo. O drama de jovens que não se enquadram esteticamente dentro da padronização social é sentido através de suas percepções.

Através de suas claras metáforas ao espaço enquanto possibilidade de libertação de olhares da terra, remete muito ao recente (e, para mim, excelente) “Ad Astra: Rumo às Estrelas” (2019), de James Gray. Lá, a obsessão pela melhora científica e pela descoberta de novas possibilidades somente revela o angustiante (porém, também libertador) fato de que não iremos resolver nossos dilemas internos com novos mundos, mas somente através de nós, humanos. Através de nossas relações, sofremos, mas é só nela que de fato existimos e, junto, nos alegramos e encontramos alguma redenção. “100 Quilos de Estrelas” utiliza da mesma premissa metafórica espacial e de sensações, porém por outro caminho.

Aqui, a liberdade e o prazer, pelo menos até os últimos momentos do filme, só é encontrada em espaços vazios e abertos. Quando na presença dos pais, de competidores em concursos científicos (homens brancos) ou de figuras alheias de maneira geral, a atmosfera se transforma em angústia e sufocamento. Em compensação, as únicas presenças que tornam os locais mais confortáveis são as que passam também por diferenças estéticas ou que, entre muitas aspas, lidam com o “estranhamento” dos outros. Em sua relação de compreensão, empatia e entendimento de lugar, se encontra a real redenção do longa.

Embora ideologicamente e a nível pessoal eu me encontre alinhado com a visão “edificante” do longa de Gray, não posso deixar de entender os que não veem a humanidade e a sociedade com os olhos de unidade e conjunto. Afinal, estamos constantemente dando motivos para esse afastamento. Nossos olhares  de julgamento moral ou estético pairam pesadamente sobre qualquer outro que mostre particularidades especiais, quando deveriam ser acolhidas e incentivadas. “100 Quilos de Estrelas” evidencia esses olhares imageticamente, assim como o peso que representam. As quatro personagens e suas reações são carregadas e fortes. Por vezes, em momentos de irritação, acabam por agir elas mesmas da forma repressora que tanto sofrem, mecanismo de defesa frente a falta de poder de escolha.

Em contrapartida a bem trabalhada linha contemplativa, o filme contém uma exposição exagerada de seus dilemas. O que está representado em tela perfeitamente desde seu primeiro ato, retorna através de discursos histéricos explicativos no terceiro. É recorrente, em momentos de conflito, que ocorra pausas na narrativa para expor suas temáticas e suas mensagens que já estavam eficientemente firmes. O discurso é incômodo, mas não é o único meio que a narrativa utiliza para tornar o longa mais palatável. Obviedades surgem aqui e ali, utilizando até close ups desnecessários para se certificar que entendemos a mensagem.

A montagem, embora eficiente na maior parte do tempo, parece por vezes prejudicar o processo de imersão, com cenas que parecem surgir de forma mecânica, exalando os pontos de virada do roteiro como “passagens de fase” de um videogame. De forma pouco natural no universo do filme, como ao dizer que são momentos que estão presentes apenas para a narrativa seguir, indo justamente contra sua realização no calmo e nas reações dos personagens.

Apesar disso, “100 Quilos de Estrelas” é admirável em diversos sentidos. Encontra-se um bom filme tanto na questão do olhar como na contemplação. Explorando a corporalidade na imagem e como os corpos se encaixam em espaços que não são distantes em meio às estrelas, mas essencialmente sociais. A fuga dos outros para respirar por vezes é desejada ao máximo. E, ao final, o longa é belo ao retratar como esses dilemas são superados novamente em relações humanas.

Trailer

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