10 Horas Para o Natal

Jingle Bells, Jingle Bells, acabou o papel

Por Fabricio Duque

Antes de tudo, é preciso estabelecer limites ao se analisar criticamente um filme, principalmente se este for um produto popular realizado exclusivamente para atender os anseios de diversão das massas. Nós nunca poderemos exigir que uma obra se comporte com características de outras, por isso foi definida a classificação de gêneros, ainda que alguns conversem entre si, a essência precisa ser seguida, como uma fórmula pronta, goste ou não. O novo filme “10 Horas Para o Natal” da diretora Cris D’Amato (de “É Fada”, “S.O.S.: Mulheres ao Mar”, “Linda de Morrer”) configura-se como um típico exemplar deste cinema popular, por sua trama palatável, ações desembestadas, comportamentos infantis (adultos imaturos), reações em cadeia “pastelão” e improvisos facilitados por um roteiro (quase preguiçoso), que visa a diversão superficial acima de todas as coisas. A narrativa é nivelada por baixo para que assim possa “estar de igual para igual” com o povo. Não se sabe explicar, mas que isso soa um tanto preconceituoso, não resta dúvidas.

“10 Horas Para o Natal” conduz-se como uma comédia natalina de situações, muito semelhante a um Especial de Final de Ano da Rede Globo. Esta chanchada, escrita por Bia Crespo (de “O Doutrinador”) e Flávia Guimarães (de “Quanto Tempo o Tempo Tem”), as duas também roteirizaram “A Sogra Perfeita” (em lançamento), moderniza-se pelas regras algorítmicas do cinema comercial dos Estados Unidos, como se fosse uma receita de bolo unida a um episódio de “Vai Que Cola”, por exemplo. Contudo, diferentemente do seriado, aqui é desejado arduamente a americanização dos costumes e tradições, sempre em prol da alegria e paz da família, ainda que disfuncional e idiossincrática. Por exemplo, a mise-en-scène cria uma São Paulo como um espaço geográfico expandido e universal, que se não fosse pela incursão pela 25 de Março, o Saara paulista e/ou quase um Garden Mall de New Jersey, poderíamos sentir que o filme se passa em New York, por exemplo, pela presença dos casacos, da neve e da fantasia do Papai Noel. E músicas em inglês. Cadê Simone e seu “Então é Natal”? Um outro aspecto nos faz abandonar a ideia estrangeira: o merchandising explícito, de imposição agressiva, não orgânica. Todos os patrocinadores do filme recebem a inclusão de seus produtos quando se faz a barba, quando se coloca a roupa para lavar. É um easter eggs do mundo das marcas industriais. De “Detetives do Prédio Azul” a “Minha Mãe é uma Peça” no Telecine.

O longa-metragem também repete a estrutura narrativa das novelas, subordinando tudo ao diálogo, inclusive com personagens que narram sozinhos o que acontece ou o que está por vir. Neste gênero não há espaço para silêncios e aprofundamentos psicológicos. A pressa e a urgência em filmar limitam algum resquício de imersão interpretativa. Seus atores encenam com teatralidade circense, de anti-naturalismo forçado, de falas robóticas, quase decoradas cinco minutos antes, e que precisam ser ditas logo para que não esqueçam. E ainda que, em determinados momentos, a protagonista-perspectiva narradora (sempre por seus olhos contados, o que talvez possa embasar a confusão generalizada, porque advém da memória) Julia (a atriz Giulia Benitte (a Mônica de “Turma da Mônica – Laços”), se utilize do artifício cênico da quarta parede (de olhar diretamente para a câmera a fim de conversar com o espectador), isto que na “gestação” soasse como inventivo, hoje, não passa de mais um elemento cliché (os seriados “Fleabag” e “House of Cards” já usaram à exaustão). Outro entendimento possível é que talvez os personagens do Porta dos Fundos (aqui, Luis Lobianco e Lorena Queiroz, que vive o casal de pais, à moda de “Um Natal Nada Normal”, seriado da Netflix) só funcionem mesmo em esquetes.

Dessa forma, “10 Horas Para o Natal” constitui-se em uma sequência de esquetes “bagunçadas” (com piadas sobre “cocô” e com a ultra-mega facilitação dos conflitos – como ganhar uma árvore de natal, pelo “truque” da manipulação do grito ou da fofura). Sim, este é mais um incômodo do filme. Um desserviço aos pais. Os filhos são pequenos ditadores e mimados (complemente oposto a “Esqueceram de Mim”). Aqui, as reações piam em estereótipos caricatos de comportamentos sociais, como a eterna piada de “É Pavê ou Pa comer”. Pois é, todo esse cacarejo nos questiona a tentar entender se “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”, aludindo à campanha de 1984. Será que os espectadores procuram essas características desse gênero popular ou recebem pronto sem reagir, aceitando e naturalizando a estética como costume coloquial de um gosto adquirido? Teve até musical-projeção-imaginação na neve. Só faltou mesmo “Jingle Bells, Jingle Bells, acabou o papel. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal”.

Trailer

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