Vil, Má

Fetiches em um orgânico e barroco divã

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2020

Gustavo Vinagre não enxerga problema algum em superexposições, tampouco a sua. Esta característica é o que define o cinema que faz, tornando a obra uma coisa só: uma visão impossível de dissociar realidade e ficção. A complexidade está em transformar a simplicidade orgânica do cotidiano em um despudorado material bruto não lapidado. A sabedoria popular mostra que a “maldade está na cabeça de cabeça de quem vê”. Quando traz o universo underground sadomasoquista a seus filmes, nós espectadores podemos experimentar fetiches e infinitas possibilidades sexuais. Os desejos são traduzidos pela percepção Kitsch, como se fossem contraditórias nostalgias atemporais, igual àquelas prateleiras proibidas no fundo de locadoras de vídeo. No longa-metragem documental “Vil, Má”, exibido no Festival de Berlim 2020, Gustavo, à moda estrutural-estética de Bruce LaBruce, mostra o mundo dos dominadores e dominados no sexo. Os “mestres” e os “escravos”. Os que são “adorados” e os que sentem prazer na “submissão”. Cada um ali encarna seu papel. Cada um ali se permite viver além da transgressão, palavra esta cunhada por uma moralista, conservadora e hipócrita sociedade.

“Vil, Má” quer ser um processo em fluxo de produção, como entendido na cena em que a “Dominatrix” lê uma carta de um “cliente”, errando algumas vezes. Aqui, o público é convidado a participar dos bastidores, dos porquês, das preparações, por conversas em busca da  “verdade”, entre experiências de fustigação. O título do filme é um trocadilho-analogia de Wilma Azevedo, a real personagem: uma escrita de contos eróticos, com 74 anos, que “interpreta” a “Rainha literária”, mas também é Edivina Ribeiro, jornalista, mãe de 3 filhos, religiosa e esposa dedicada. No novo nome, a “Mistress”, três em uma, impossíveis de separar, ganha conotação crítica daquilo que é “ordinário” que “não presta” com a maldade cúmplice e esperada. Podendo ser um gatilho, uma terapia cognitiva e/ou uma personalidade identitária que precisa ficar imune e aparecer somente em ambientes obscuros, com um que, não visando chocar, de “120 Dias de Saló”, de Pasolini. Qual delas criou a outra? A pergunta é uma retórica que o próprio filme tenta responder. Um desafio.

O documentário cava a sensação de intimidade imersiva pela imagem permissiva e livre de transpor julgamentos. Uma delas em cena, em um jogo proposto com o espectador, conta as histórias curiosas, de “taras sexólogas por natureza” (“áreas exógenas que estimulam nervos e causam ardências gostosas”),  acontecidas em mais de sete décadas. Percebemos também que realidade e fantasia são indissociáveis. As três são partes únicas, entre “Chapeuzinho Vermelho”, “Cinderela” e jantares familiares em uma “aristocracia decadente”. “Vil, Má” constrói um visual barroco de quartos de motel cotidianos. E quanto mais ouvimos, mais o filme se torna humano. O que a “Mestre” conta a seu “servo” diretor evoca a problematização social dos preconceitos machistas de “outras épocas”, como a “objetivação do corpo”. Mas tudo também pode ser apenas um texto e/ou um roteiro, talvez por ter sido sido escrito há “trinta anos”. Talvez porque quem “conta aumenta um ponto”, que dependendo do querer pode mudar completamente intenções e direcionamentos. Essas memórias lidas são reconstituídas pelas novas percepções do agora, já defensivas por causa do conhecimento sobre como as coisas funcionam.

E é aí que mora a maestria de “Vil, Má”. De confundir com a projeção do que tudo possa ser. Entre “prazeres embutidos”, “protocolos”, “regras” e de jogar a consciência para “fora de você”, o que Ela faz representa um trabalho, executado com prazer. O “sexo insólito”, às vezes escatológico, com “torturas eróticas”, é seu “ganha pão”. Uma troca mercadológica, que transcende a questão política. Mas se aprofundarmos a questão, então veremos que isso debate o papel feminista. De dominar o homem. De permitir que vivam a submissão. É um poder total que controla, ora verbal, ora sádica, ora humilhante, as vulnerabilidades dos “machos”. O assunto BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) ficou mais em voga após a conservadora saga “perfumaria” “50 Tons de Cinza” ser lançada nos cinemas. A “família” pôde “brincar”, porque se tornou “modinha”. “Vil, Má”, ainda bem, não se parece nada com as “crianças travessas” de lá. Aqui há “raiz”. A essência da dor com suas “palavras de segurança”, até porque o prazer precisa ser consentido em eróticas cenas interativas. Qual delas criou a outra? A pergunta continua retórica, visto que é impossível traduzir as intenções cognitivas. E Gustavo Vinagre sabe muito bem disso. Respeitoso e submissa com a “Rainha” que biografa.

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