Vida de Cabra
As provações de Najeeb
Por João Lanari Bo
Um dos personagens mais populares no Antigo Testamento da Bíblia é o profeta Jó, aquele que sofreu provações e angústias – perdeu todas as suas propriedades, seus filhos morreram e ainda passou por grande sofrimento físico. A raiva de Deus sobre Jó não tinha limite: chegou a permitir que Satanás o ferisse com úlceras malignas, da planta do pé ao alto da cabeça. Descendente de Abraão, Jó é venerado por judeus, muçulmanos, cristãos e drusos (pequeno grupo etnorreligioso que reside entre o Líbano, Israel, Síria e Jordânia: são uma variante do islamismo). Ninguém sabe se realmente Jó existiu, onde morou – mas certamente sabemos que provações tão ou mais angustiantes podem ressurgir no mundo contemporâneo, cenário de desigualdades e injustiças.
“Vida de Cabra”, filme indiano lançado em 2024, é mais uma atualização do mito de Jó. Najeeb Muhammad estava recém-casado, na província de Kerala, sua terra natal, sul da Índia. O malaiala é o idioma falado em Kerala, um dos 22 idiomas oficiais da Índia, utilizado por 30 milhões de pessoas. O ano era 1991: Najeeb sonha com emprego e salários melhores, como muitos compatriotas, e decide emigrar para a Arábia Saudita – hoje vivem neste país 2 milhões e meio de cidadãos indianos (em todo o Golfo seriam cerca de 8,8 milhões). Os países árabes, a despeito das duras condições climáticas, são ricos e em permanente demanda por mão de obra. Muitas vezes essa demanda resulta em exploração do trabalho forçado, ou escravidão moderna. Só na Arábia Saudita estima-se em 740 mil pessoas vivendo nessas condições.
A saga de Najeeb é a história contada em “Vida de Cabra” – abduzido no dia em que chegou, no aeroporto, escravizado cruelmente no deserto, cuidando de cabras e camelos, até empreender uma fuga miraculosa. Deus, definitivamente, esqueceu-se de Najeeb e obrigou-o às piores provações. Quem conta a história é uma produção de Bollywood, o que acrescenta uma forte e peculiar carga dramática aos sofrimentos do imigrante: qualquer que seja o drama – amores impossíveis, dramas familiares, sacrifícios, vilões, famílias separadas – em um filme de Bollywood as melodias ajudam a estruturar a narrativa. O sucesso, inclusive, é medido a partir dos seus números musicais. Seja Najeeb em idílio aquático/amoroso com a esposa, seja pastoreando cabras e bodes no meio do deserto, seja surpreendendo-se com uma flauta doce em um improvável oásis – a música integra uma espécie de reserva mental que Najeeb dispõe para enfrentar o absurdo em que se meteu, e embala a audiência.
O mundo árabe tem tradição – africanos escravizados eram vendidos na região desde a antiguidade. Hoje o que vigora é a kafala, algo como “sistema de patrocínio”, que vincula os imigrantes a um empregador/patrocinador, permitindo controle total dessa casta sobre sonhadores como Najeeb. Óbvio que as entidades de direitos humanos protestam – muitos empregadores confiscam os passaportes e abusam dos seus trabalhadores, com poucas hipóteses de repercussões jurídicas. Foi o caso do imigrante de Kerala. Em uma cena, ele implora: Por favor, deixe-me voltar, com lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto conta como vendeu tudo e deixou sua família para trás, em busca de um emprego prometido. Ele fala em malaiala, seus “patrocinadores” em árabe – não há comunicação linguística, o isolamento de Najeeb é total.
Perdi minha autoconsciência, perdi minha mente, diria mais tarde o indiano. Uma vez livre dessas provações, ele contou suas experiências para o escritor indiano Benyamin, que produziu um livro, em 2008, baseado nos relatos, mas com licenças dramáticas adicionadas: segundo a BBC, o livro está, em 2024, na edição número 250! O diretor Blessy – ele mesmo também portador de um Guiness Record, realizou em 2018 um documentário de 48 horas e oito minutos de duração! – comprou os direitos e acrescentou e/ou excluiu licenças dramáticas. O resultado final mostrou-se afinado com o público indiano – o filme foi bem sucedido no box-office, auxiliado pela vendagem expressiva do livro, e também calçado em uma realidade áspera e incontornável, a dos migrantes que decidem tentar a sorte na península arábica.
“Vida de Cabra”, inevitavelmente, atraiu fortes críticas na Arábia Saudita, sobretudo quando foi listado na Netflix, O filme seria uma narrativa fictícia projetada para manchar a imagem do país. Uma onda pedindo boicote permeou as redes sociais – com pouca ou nenhuma menção ao sistema da kafala.
Najeeb, por seu turno, superou como pôde as provações, retornou a Kerala e vive com a família.