Mostra LC Barreto de Curtas 2026

Variations on a Theme

Silêncio e fantasmas

Por Vitor Velloso

Assistido online no Festival de Roterdã 2026

Variations on a Theme

Em uma linha formal que procura encurtar o limite entre o documentário e a ficção, a 55ª edição do Festival de Roterdã nos oferece mais uma obra que não permite fácil categorização. “Variations on a Theme”, dirigido por Jason Jacobs e Devon Delmar, transita entre uma base que procura contar a história de como soldados negros sul-africanos foram enviados, durante a Segunda Guerra Mundial, pelos Aliados e nunca receberam seus pagamentos, e outra estrutura de pequenos momentos que articula elementos metafísicos com uma base do cotidiano apresentada previamente.

Aliás, parte da estrutura do filme segue uma cartilha funcional e instigante, estabelecendo uma rotina de ritmo, imagem e som que introduz o espectador em um universo de realismo mágico, no qual fantasmas coexistem em paisagens e cenários já naturalizados pelo olhar. Essas cenas de aparente normalidade são atravessadas, vez ou outra, por imagens insólitas — como um copo que se move sozinho ou um homem que cava o chão da própria casa em busca de diamantes. Ainda assim, é a base histórica que sustenta o projeto. O que mantém os personagens de pé é a esperança de um fundo financeiro prometido aos veteranos negros da Segunda Guerra Mundial, que, à época, foram compensados apenas com uma bicicleta. Essa expectativa, contudo, nunca se concretiza: permanece como esperança. A cada dia surge uma nova justificativa para o atraso nos pagamentos e a cobrança de mais uma pequena taxa, perpetuando um ciclo de frustração e adiamento.

Trazendo consigo uma forte tradição oral, “Variations on a Theme” encontra na exposição direta dos fatos, com os personagens conversando no dia a dia, uma forma perspicaz de compreender a cultura como algo que circula entre a criação e o registro do real. Não por acaso, torna-se difícil afirmar onde termina o documentário e começa a ficção — mas essa distinção perde importância quando se percebe que, em ambos os casos, a comunicação se ancora em uma realidade concreta. No centro dessa dinâmica está Ouma Hettie, que vive nas montanhas de Kamiesberge conduzindo cabras e mantendo uma rotina moldada pelo tempo, pelo clima e pela terra. Não se trata de um drama explosivo, mas de um deslocamento quase imperceptível: a expectativa infiltra-se na rotina, reorganiza conversas, altera silêncios.

A promessa de reparação, evidentemente fraudulenta, não é apenas um golpe financeiro; é a exploração de uma ferida histórica ainda aberta. “Variations on a Theme” sugere que a fraude só é possível porque o abandono estatal foi real e prolongado. Em vez de enfatizar o escândalo, a narrativa prefere observar as consequências íntimas dessa negligência, o fantasma do passado e a melancólica convivência entre eles. O aspecto lírico da obra surge menos de uma estilização evidente e mais da maneira como o filme se demora sobre o espaço. A câmera percorre plantas, cabras, poeira e cercas com a mesma atenção dedicada aos rostos, como se todos fizessem parte de uma mesma matéria sensível. A paisagem deixa de ser simples cenário e passa a carregar as marcas do tempo e da história, revelando um território que não é romantizado, mas também não é reduzido à precariedade. Há um olhar paciente, interessado na textura das coisas, que confere densidade ao cotidiano.

A presença de Hettie diante da câmera reforça essa sensação de proximidade. Avó de um dos diretores, ela se move com naturalidade, sem qualquer gesto que pareça calculado para a encenação. O filme parece nascer dessa convivência, de uma observação prolongada, na qual o registro se confunde com a intimidade. Em vez de buscar acontecimentos decisivos, a narrativa se constrói a partir de uma duração contínua, feita de tarefas simples, silêncios e repetições.

Sem se apoiar em um enredo tradicional, a obra se organiza por pequenos retornos: trajetos cotidianos, animais imóveis observando o espaço, figuras que surgem como lembranças ou presenças ambíguas. Essas repetições dão forma a uma estrutura circular, na qual o tempo não conduz a uma resolução clara, mas se acumula como experiência. O filme encontra aí sua potência, transformando a espera em matéria narrativa. Ao final, o que permanece não é apenas a denúncia histórica, mas a impressão duradoura de uma comunidade que vive entre a memória e a espera. “Variations on a Theme” encontra sua força justamente nessa delicadeza: um filme que observa, escuta, que entende que sua maior dimensão política pode ser o silêncio ou suas pausas.

3 Nota do Crítico 5 1

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