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Vai e Vem

Cartas de duas, cronologias de todos

Por Ciro Araujo

Durante o Olhar de Cinema 2022

Vai e Vem

Para além de ser um filme de estreia, “Vai e Vem”, dirigido pelas amigas Fernanda Pessoa, brasileira, e Chica Barbosa, mexicana, compôs a abertura do festival Olhar de Cinema de 2022. Muito por sua composição, a proposta dada como experimento entre as duas constrói um diálogo, uma troca de cartas que há muito não se presencia no contemporâneo. Assim, a curadoria se justifica automaticamente por também sua temática – a pandêmica – como por essa conexão encontrada pelas cineastas, de se entenderem via absorção de se basearem em dezesseis diretoras do cinema experimental. Paula Gaitán, Cheryl Dunye, Barbara Hammer são dos nomes citados na listagem do texto inicial, quando ambas acordam sob o teto de regras do filme.

O longa-metragem apresenta um processo de um ano, facilmente identificado não apenas pelo trabalho de voice-over utilizado, mas pela atualidade naturalmente imposta, já que é um filme de contemporaneidade, de notícias recentes. Falas de Jair Bolsonaro, que já são característica marcante nessa espécie de cinema de resistência, estão presentes, fazendo justaposições – perdão pelo trocadilho – justas. Os temas das conversas percorrem, parecendo alguns vários encontros entre amigas, o que traz uma emoção dentro da estrutura óssea do filme.

Fernanda Pessoa, que já dirigira o ótimo “Histórias Que Nossas Babás não Contavam”, assume o retrato falado do Brasil, enquanto expõe suas agonias e angústias dentro da questão de isolamento. Talvez a temática seja deveras pontual, ou melhor: sazonal. A época de filmes pandêmicos que relacionam esse sentimento coletivo de solidão ou na realidade claustrofobia parecem cobrir um espaço já batido, o que transforma tudo em algo tão anti-original. Claro que a intenção da cineasta não era necessariamente contar sobre a pandemia, mas sua relação política-social como indivíduo que vivencia aquele momento. Mas parece tão explícito, tão não-além, isto é, que não sai de seu próprio modo. Em um determinado momento, Pessoa procura fazer graça com um humor mórbido, mas que não parece engrandecer o seu filme.

Por outro lado, Chica Barbosa, radicalizada em Los Angeles, Estados Unidos, entrega algo que a princípio parece menos experimentalista. Não, de forma alguma isso torna suas sessões em menores ou pequenas comparadas à de Fernanda, mas na realidade entrega uma visão naturalmente e claramente diferente de sua amiga brasileira. Suas filmagens do céu e de um tom mais azulado revelam também um costume ao cinema independente norte-americano, que se aproxima muito mais dali que do tom de cor naturalista do cinema do Brasil. Sua linearidade é também mais presente, que compõe uma comunicação com o imaginário do país naquela época de eleições americanas. A adrenalina e o confronto que se tornou diante da apreensão existente para mudanças – que por sinal, não parecer muito ter mudado – fomenta uma imagem incansável para filmar. A natureza humana de se interessar pelo que ocorre ali atualmente e divulgar para conhecidos, transforma como cartões postais para seus conhecidos mais íntimos.

Portanto, “Vai e Vem” é de fato não uma experiência entre o paralelismo entregue dentro desses dois universos de políticos e políticas públicas. Na verdade funciona como fuga de realidade e, paradoxalmente, aproximação desse contemporâneo. Uma espécie de desabafo que funciona muito mais para si que como ferramenta comunicacional para um público. Torna-se assim uma ferramenta também em antítese entre potência individual ou coletiva. Qual é o ponto em que entramos em identificação? A questão constrói na realidade um ativo que de fato, quando escrito por um homem branco, é de difícil percepção além do plano público, isto é, além da vivência. Se o cinema por vez pode ser algo geral, por hora também possui espaço para o indivíduo: a quem interessa ser sólido e franco para si? Apesar dos encontros voyeurs, pela curiosidade humana de querer entender cada vida e cada aspecto único de um ser, o interesse é apenas para si, para quem filma e sua nuvem próxima de amigos, familiares.

O que verdadeiramente constrói em “Vai e Vem” são essas memórias em sintonia, em complemento e em brincadeira. O cinema, pois bem, possui também essa característica de funcionar como um grande jogo; Especialmente quando a imposição do ócio terrível causado por esse isolamento e ampliado por dois terríveis presidentes existe, então acaba como uma terapia funcional. A grande questão é do que funciona para além, do que é identificável e do que é louvável quando funciona imageticamente. Com toda a certeza existirá uma bolha entre espectador e autor que precisa ser estourada, mas que o longa-metragem não parece atravessar tanto.

2 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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