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Vá e Veja

A escritura do desastre

Por João Lanari Bo

Festival de Moscou 1985

Vá e Veja

Vá e Veja”, o longa que Elem Klimov dirigiu em 1985, é um desses filmes que o passar do tempo só aumenta seu status artístico, mesmo em cima de uma tradição saturada dos mais variados experimentos, como são os filmes de guerra – em particular, a Segunda Guerra Mundial. A brutalidade das situações que descreve, tomadas de fatos reais narrados no livro “Eu sou da vila do fogo” – escrito, entre outros, pelo corroteirista Ales Adamovich – é extrema, visceral. O título é inspirado na Bíblia, Apocalipse 6:1-4:

E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê.

E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra.

E mais: as soluções que utiliza para imergir o espectador nessa barbárie são altamente eficazes e ousadas – um filme (quase) háptico, ou seja, tátil, próprio para tocar e sensível ao tato. Háptico: correlato tátil da óptica (para o visual) e da acústica (para o auditivo). Nunca no cinema os efeitos da explosão de uma bomba – sonoros, epidérmicos, psíquicos – foram vivenciados com tal intensidade, sobretudo por aqueles que apreciam o espetáculo no conforto da poltrona, de preferência na sala de exibição. Surdez e desorientação tomam conta da experiência fílmica, fazendo com que os espectadores se sintam no interior das vibrações da guerra, do desastre. Ondas acústicas e transfigurações ópticas detonam a estabilidade do olhar. O audiovisual transforma-se numa verdadeira escritura do desastre, não-passiva e interativa – como diz Maurice Blanchot: o desastre… é o que escapa à própria possibilidade da experiência — é o limite da escrita. A guerra, da forma como é experimentada pelo adolescente Floria nos confins da Belarus, é a violência no limite, indescritível – durante três anos de ocupação pelos nazistas, cerca de 1 milhão e 600 mil pessoas morreram, mais de 9 mil assentamentos foram destruídos, 628 aldeias tiveram a população aniquilada – inclusive o vilarejo natal de Adamovich. Em 1940, a população do país alcançava 9 milhões de habitantes: em 1951, 7,7 milhões.

Klimov teve de esperar oito anos para obter aprovação do roteiro – nesse meio tempo, a ex-União Soviética passou da estagnação de Brejnev à vertigem de Gorbachev, que chegou ao poder em 1985. “Vá e Veja” foi produzido nesse momento de ruptura – e também para comemorar o 40º aniversário da vitória soviética na Grande Guerra Patriótica, como os russos nomeiam a 2ª Guerra. No Festival de Cinema de Moscou de 1985 recebeu o principal prêmio: mais do que comemorar, entretanto, sua premiação sinalizou o início da glasnot (literalmente “transparência”) na vida política no país dos soviets, ao lado da perestroika (“reestruturação”) – e o mundo socialista virou de cabeça para baixo. No plano cinematográfico, o filme subverte expectativas conservadoras: as crianças não respeitam os mais velhos, a mãe de Floria fica histérica em sua partida, e partisans pilham os aldeões. Essas transgressões não aconteciam nos filmes de guerra na ex-URSS. No tempo de Stálin, o culto à personalidade deu uma aparência kitsch às narrativas do conflito, onde o líder aparecia como entidade mediúnica a decidir sobre os destinos do povo soviético: depois de sua morte em 1953, com as revelações de Nikita Khrushchov sobre os crimes do regime no 20º Congresso do Partido, em 1956, a ênfase voltou-se para dramas e sofrimentos particulares, inclusive da população civil; com a ascensão de Brejnev em 1964, a Guerra Patriótica enquanto sucesso militar voltou ao primeiro plano, desta feita sem a mediunidade stalinista, mas como plataforma ideológica de união nacional. O crítico Jim Hoberman sugere que o filme de Klimov revitalizou o mais sagrado dos gêneros soviéticos, o cinema de guerra – e na sequência produziu algo que poderia ser prontamente entendido como aviso contra o apocalipse nuclear que se anunciava com o fim da Guerra Fria. Aviso que pode ser lido nos closes de Floria, signos de erosão de seu olhar inocente causada pela devastação do entorno, infestada de nazistas bêbados e sádicos. Bombas caem não se sabe de onde: Floria, de 12 anos, envelhece a olhos vistos, mas junta-se à resistência e sobrevive.

Elem Klimov, que logo depois, em 1986, foi escolhido por seus colegas para ser o líder do Sindicato dos Cineastas, destronando velhos caciques do cinema soviético – nunca mais voltaria a dirigir filmes: “Vá e Veja” foi o último. Nasceu em Stalingrado em 1933, em uma família de comunistas convictos: seu nome Elem é uma referência à tríade Engels, Lênin e Marx. Foi casado com a talentosa cineasta Larisa Sheptiko, ucraniana de nascimento – morta, prematura e tragicamente, em 1979. Klimov era a personalidade que a história do cinema na URSS pedia para efetuar essa dolorosa e complexa transição, no instante mesmo que o sistema comunista iniciava sua derrocada final.

Extra

5 Nota do Crítico 5 1

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