Uma Segunda Chance para Amar

Uma nova khaleesi

Por Pedro Guedes

Quando Emilia Clarke apareceu para o grande público, na série “Game of Thrones” (2011-2019), a impressão que ficou era a de que se tratava de uma atriz limitada, mas que combinava com a natureza dramática de uma personagem como Daenerys Targaryen – e o sentimento de que Clarke era uma atriz limitada voltou a se manifestar quando começou a tentar emplacar uma carreira no Cinema, fazendo a jovem Sarah Connor no horroroso “O Exterminador do Futuro: Gênesis”. Por outro lado, nos anos seguintes vieram “Como Eu Era Antes de Você” e “Han Solo: Uma História Star Wars”, dois filmes que não eram grandes coisas, mas que traziam entre seus poucos pontos positivos justamente a atuação de Emilia Clarke, o que sugeria que, um dia, a atriz ainda poderia surpreender com um papel que não fosse o da khaleesi de “Game of Thrones”.

O que nos traz a “Uma Segunda Chance para Amar”: exibindo carisma, bom humor e dinamismo em todas as cenas das quais participa, Emilia Clarke surge como o grande destaque desta nova comédia de Paul Feig (“Missão: Madrinha de Casamento”, “As Bem-Armadas”, “A Espiã Que Sabia de Menos” e “As Caça-Fantasmas) – mesmo que o filme em si traga uma série de problemas que tendem a torná-lo apenas razoável em seu resultado final. Inspirado na canção Last Christmas, do Wham! de George Michael, o roteiro de Emma Thompson e Bryony Kimmings nos apresenta a Kate, uma jovem inglesa (e filha de um casal iugoslavo) que trabalha fantasiada de elfo de Natal em uma loja de brinquedos e que infelizmente vem colecionando um monte de frustrações pessoais, fazendo sua vida virar uma completa bagunça. Tudo começa a mudar, porém, quando conhece um rapaz chamado Tom, que a faz enxergar o mundo de uma nova maneira.

Kate é, portanto, uma protagonista que segue a velha cartilha da “personagem fracassada que vive sofrendo e encarando a vida com desesperança, mas que eventualmente acaba encontrando seu caminho”. Por outro lado, se o arco da personagem soa batido, o desempenho de Emilia Clarke acaba compensando os clichês de sua jornada: conferindo intensidade e carisma à protagonista, a atriz exibe um ar subjacente de deboche que se manifesta não só no tom de sua voz, mas também na irreverência ocasional de sua postura corporal. Não que o sarcasmo elimine o peso dos dramas particulares de Kate, que são retratados por Clarke de maneira igualmente eficiente (a não ser, é claro, quando a artificialidade do roteiro sabota seus esforços). Ao mesmo tempo, o malaio Henry Golding (que já trabalhou com Paul Feig em “Um Pequeno Favor) estabelece Tom como uma bússola para Kate, surgindo na narrativa apenas quando sua presença se mostra necessária.

Infelizmente, para funcionar, “Uma Segunda Chance para Amar” depende não apenas dos dois atores centrais, mas também de uma série de outros elementos inerentes à linguagem cinematográfica – em especial, o roteiro e a direção. E, aqui, os esforços não poderiam ser mais irregulares: embora investindo em um tom de deboche que condiz com a personalidade da protagonista, Paul Feig aos poucos vai perdendo o senso de humor irreverente que tanto favorecia a primeira metade da narrativa, como se deixasse de ridicularizar os clichês da história para sucumbir… aos clichês propriamente ditos. Assim, a segunda metade do filme se revela bem menos inteligente e mais burocrática do que a primeira, perdendo completamente a sagacidade que mantinha até então e caindo no lugar-comum das comédias românticas. Como se não bastasse, Feig não economiza na obviedade ao desenvolver a narrativa, permitindo, por exemplo, que a trilha sonora de Theodore Shapiro “mastigue” excessivamente as intenções de todas as cenas.

Mas não é só: escrito por Emma Thompson e Bryony Kimmings de maneira tola e esquemática, o roteiro de “Uma Segunda Chance para Amar”  tropeça ao criar uma série de pequenos conflitinhos que, além de não acrescentarem nada à trama principal, soam forçados no meio da narrativa, como a sugestão de um relacionamento amoroso entre a chefe de Kate e um cliente da loja na qual trabalha – o mesmo se aplica ao drama entre a protagonista e sua irmã, que só é introduzido lá para os 45 do segundo tempo e, portanto, não tem tempo de ser desenvolvido. Para piorar, o terceiro ato faz questão de incluir uma reviravolta que, além de absurda e ridícula, ainda é construída de forma dramaticamente ridícula, com uma musiquinha que se pretende melosa tocando ao fundo e vários flashbacks surgindo entrecortados para ilustrar uma série de pequenas memórias de Kate vindo à tona.

Enfiando à força um subtexto sobre a xenofobia notável de boa parte da Europa em relação à entrada dos imigrantes que, de tão raso e superficial, acaba soando como uma tentativa de fazer o filme posar de socialmente relevante, “Uma Segunda Chance para Amar” é uma obra apenas mediana e esquecível – mas que traz Emilia Clarke em uma performance tão contagiante que torna-se difícil não admirá-la ao menos um pouquinho.

 

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