Uma Irmã

Minutos de Angústia

Por Jorge Cruz

Uma Irmã“, produção indicada ao Oscar 2020 que pode ser assistido com legendas no YouTube, uma vez que faz parte da programação do My French Film Festival, de certa maneira nos remete ao potente curta-metragem que Hilda Lopes Pontes apresentou na Mostra de Tiradentes de 2019 chamado “Onze Minutos“. Usando como argumento a violência física e psicológica sofrida por mulheres em qualquer sociedade, a produção brasileira se utiliza de um carro como cenário único de uma viagem onde a protagonista era constantemente assediada por um motorista de aplicativo.

Contudo, em “Uma Irmã” a realizadora Delphine Girard (em seu terceiro trabalho) nos coloca em uma trama onde aquele que violenta, que oprime, é o homem mais próximo, com o qual aquela mulher divide sua intimidade. Nunca é demais lembrar que grande parte dos casos de agressões (físicas e psicológicas) às mulheres acontecem em ambientes domésticos, onde ela apostam no entendimento, na harmonia e na cumplicidade.

Como obra audiovisual, o curta-metragem se vale de representações onde, nos primeiros minutos, informações são negligenciadas ao espectador, potencializando o suspense. Ultrapassada essa fase, “Uma Irmã” se transforma em uma angustiante história em que o sentimento de urgência em nenhum momento arrefece. A criação de uma situação-limite se sustenta com facilidade e traz uma conclusão carregada de crueza – ao contrário do realismo fantástico proposto por Hilda.

É até irônica pensar na possibilidade do público achar a solução encontrada por Girard tão crível quanto a de Lopes Pontes. O risco de novos episódios de assédio e violência e a opressão constante das mulheres torna inviável a elas a afirmação de que há, em algum momento da vida, um final feliz. O que torna “Uma Irmã” tão marcante, entretanto, é a maneira como a atendente vivida por Veerle Baetens projeta seus próprios medos no cuidado dispensado à Alie (Selma Alaoui). Um vínculo de irmandade que contagia o espectador e forma um triângulo de expectativa e angústia que devemos agradecer por chegar ao fim tão rápido.

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