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Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados

Na lupa amarela da hostilidade

Por Paula Hong

Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados

Na erupção de novos tempos, a adaptação às mudanças e o desapego com o passado acontece em diferentes níveis. Para quem é do campo, o acesso à modernidade da Alemanha do começo dos anos 90 pós-reunificação acontece de forma vagarosa, parcelada, pelas vias das longas viagens à capital, símbolo de progresso cujas cores contrastam com o amarelo de verão do campo sempre presente em “Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados”, adaptado do livro homônimo de Daniela Krien e dirigido por Emily Atef.

É nesse pano de fundo histórico que Atef retrata o gradual rompimento harmônico de Maria (Marlene Burow) com o namorado Johannes (Cedric Eich) e sua família para viver uma paixão “May-December” (termo usado para falar em termos de duração da relação, e não em referência ao maravilhoso filme de Todd Haynes) com o bruto e ríspido Henner (Felix Kramer), homem com o dobro da sua idade, como um comentário ao desenvolvimento da sexualidade de uma jovem mulher e à falta de atratividade que o tedioso modernismo alemão é assimilado por certas camadas da sociedade. Com um desfecho previsível e trágico, a diretora transborda o filme ancorado em artifícios de narrativa como morosidade, violência e tragédia (inegavelmente sentido por quem assiste) para contrapor o imaginário de um típico verão europeu com a incompatibilidade do que assistimos. 

Os momentos iniciais do filme são construídos em torno da estabilidade das relações na família Brendel, com Maria inclusa. Eles demonstram companheirismo e esforços para manter a funcionalidade das atividades no campo, de onde tiram o seu sustento. Apesar das dificuldades, o curso dos acontecimentos parece seguir numa tranquilidade que engana — Johannes e Maria estão apaixonados, esperançosos pelo futuro e em sintonia, mostrada pela intimidade da câmera no quarto quando se despem, um na frente do outro, rindo. O restante da família segue na mesma atmosfera onde a normalidade de uma Alemanha Oriental não espera o balançar da reunificação, simbolizado tanta pela chegada de Henner na vida de Maria, quanto pelo reencontro com parentes da Alemanha Ocidental. 

A partir de então, Atef trabalha as vidas paralelas que Maria se esforça para manter: a relação com Henner e a outra relação que tem com o namorado e a estabilidade familiar de um lar. Enquanto eles são tomados pelas novidades trazidas pela cidade, Maria finca raízes cada vez mais profundas numa dinâmica que traduz a estagnação temporal levantada em “Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados”: como se o amarelo-verão da fotografia expressasse o aspecto ultrapassado de suas vidas, enquanto Berlin assegura uma vitalidade e renovação que seduzem a emigração cada vez mais frequente do campo para a cidade; a mãe de Maria arruma um emprego, o namorado quer estudar em uma universidade de renome e, aos poucos, a família Brendel fica menor, rodeada por uma tensão derivada dos conflitos de interesse trazidos pelas novidades da cidade.

Essa tensão é também construída nos atritos corporais entre Maria e Henner, nas coreografias dos corpos que se relacionam em uma hostilidade sexual que ora se apresenta consentida, ora extrapola os limites — física e emocionalmente. À medida que a relação avança, Maria parece tomar consciência desses desbalanços e, apesar das desvantagens físicas em comparação a ele, retribui a intensidade à sua maneira, de modo que o atinge no ponto mais alto da sua fragilidade emocional. O fim não poderia ser outro senão trágico, tal qual o romance que lê ao longo do filme; “Os Irmãos Karamazov”. 

Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados trabalha com as próprias quebras de expectativas construídas na superfície de uma história aparentemente simples: uma família lida com as mudanças trazidas pela reunificação da Alemanha. Até que afunila e direciona o curso do acontecimentos para um lado, aprofundando na avidez do que permanece estático num pano de fundo maior. É como se ao escolher retratar a vivência do florescimento sexual da personagem, a diretora Emily Atef desviasse da expectativa de tocar nas grandes questões do pano de fundo, mostrando que o verdadeiro acontecimento daquele verão é para Maria o que atravessa e avassala uma dinâmica fadada ao declínio desde o começo.

Portanto, é com decepção que a condução da obra se demore tanto na tentativa de abarcar a dupla vida de Maria, uma mulher aprendendo sobre si mesma por intermédio de um relacionamento complexo, tocando em enredamentos da drástica mudança do modo de vida alemão sem intensificá-los de modo que agregasse camadas significativas às mudanças internas de Maria.

2 Nota do Crítico 5 1

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