Um Dia de Chuva em Nova York

Mais acolá que lá

Por Fabricio Duque

Talvez seja uma clichê, mas não há como começar uma análise crítica sobre um novo longa-metragem de Woody Allen sem mencionar que até mesmo as obras mais fracas ainda assim são superiores a muitos filmes. Sim, contudo, é com dor no coração que esta máxima não se aplica à recente experiência deste judeu novaiorquino que nos encantou toda uma vida com seu humor espirituoso e de ironia agridoce, pululando diálogos com uma inocente graça amadurecida. Sim, até mesmo os mestres-realizadores não conseguem repetir sucessos. Sim, é mais que aceitável.

“Um Dia de Chuva em Nova York” é o retorno de Woody Allen a sua terra natal. New York brilha e acontece pela fotografia solar e nostalgicamente contemporânea de Vittorio Storaro, que constrói uma importação reconstituída de uma atmosfera passada que se personifica no presente. Sim, as características típicas estão todas aqui: os créditos iniciais com a mesma tipografia da letra e com o jazz raiz e clássico.

Mas o que incomoda (e muito) é a condução do trio de atores Timothée Chalamet (que excetuando sua interpretação em “Me Chame Pelo Seu Nome”, os trejeitos e reações já criaram uma zona de conforto, como em “O Rei”, “Beautiful Boy” – que vive o jovem Gatsby, logicamente uma referência ao livro The Great Gatsby), Selena Gomez e Elle Fanning (talvez seja responsabilidade demais a jovens que ainda acreditam que apenas a beleza já é o suficiente para justificar seus papéis), que se amparam em um roteiro (que inacreditavelmente é do próprio Woody Allen) óbvio, facilitador e pincelado de gatilhos comuns. Sim, este pode ser considerado uma gentrificação da modernidade. Uma “Malhação” na Apple City. É como se o Sr. Allen quisesse recuperar sua juventude por um mundo atual totalmente vazio, preguiçoso, sensível e fútil em conversas-monólogos afoitos, forçados e sem direção.

“Um Dia de Chuva em Nova York” não é ruim, apenas comum e padronizado dentro da lógica de mercado hollywoodiano. As personagens, distantes, anti-naturalistas e hesitantes (estão presas na literalidade da criação, esquecendo-se que é a idiossincrasia improvisada, livre, orgânica, perdem-se dentro de seus próprios papéis, sem carga dramática e sem construir afinidades com seu público. Nós espectadores não encontramos mais o tom fabular-surrealista-realista de contos urbanos, intimistas e particulares, no outono novaiorquino. Aqui é ofertado uma possibilidade de cumplicidade, de aceitar as coisas como elas são. Com a “ansiedade e paranoia de New York” de um “clássico filme noir moderna” que canta “Gigi”. 

A estrutura é a mesma. Há quem diga, os jovens pretensiosos de plantão, que todos seus filmes são iguais. Não, queridos pirralhos, não são. Com suas conversas verborrágicas, instantes-acasos e cenários que fogem dos pontos turísticos e que imprimem uma sensação de pertencimento naturalista, o longa-metragem é uma comédia de situações, que se bagunçam propositalmente no tempo e espaço para embasar consequências de crível realismo fantástico. “Não tem como competir com artista torturado que tem carisma”, diz-se.

É uma epifania sã, ao mesmo tempo projetando o querer e com os dois pés fincados no chão. É um filme de cenas. De esquetes existencialistas, reverberadas entre a junção do barroco e o moderno. Do clássico e do pop-hipster (os restaurantes fusion). Do excêntrico-exótico ao descolado. De desdobramentos que perdem a lógica com a precisa explicação cognitiva das extensões subjetivas e impulsivas das sinapses dessas mentes humanas, que pensam tanto que chegam à robotização. Com ou sem “conhecer DeSica e Renoir”. Com ou sem uma “sondagem emocional babaca”.

Assistir “Um Dia de Chuva em Nova York” é entrar em jogo de encontrar pistas (easter eggs) referenciais às obras anteriores. Mas é um outro Woody Allen. Talvez nem seja. Talvez nosso tão amado diretor tenha buscado criar um pseudônimo com o próprio nome para simplificar mais e encenar mais, trabalhando estereótipos sem o mesmo cuidado e paciência (ou a falta) de seus filmes passados. Só que a comparação é inevitável.

Temos a chuva melancólica e romântica, o Soho com “gente criativa”, olhares pessoais sobre lugares com memórias afetivas, os adjetivos que definem comportamentos (a personalidade absoluta), questões republicanas, “ambições honestas”, “surpresas divertidas”, “reações hemorrágicas”, gênios possessivos, dúvidas plantadas, furos jornalísticos (scoops – “mercenários loucos por uma fofoca”) É “mais acolá que lá”.

Mais ingênuo. Deslocado no tempo. Em uma das cenas, uma personagem diz: “Nunca vai agradar ao grande público: é original demais” (seria esta uma comprovação futura?). E/ou uma “fase de auto-sabotagem” (“O que sofrer tem de tão interessante?”) de “velhos decrépitos” e/ou de “risadas fatais” que desnorteiam casamentos e/ou “jornalista que parece uma adolescente”.

Aqui, diálogos parecem lidos, fakes, sem emoção. Nós esperamos uma mudança que nunca acontece, parecendo mais aqueles vídeos das aulas de cursos de inglês. De novo, a fotografia rouba literalmente a cena, principalmente quando fica desbotada e mais real com a chegada da chuva (a garoa intermitente) e/ou quando cria a metáfora espacial com o guarda-chuvas: um de cor preta, apertado (desconfortável) para duas pessoas, outro gigante (confortável) e transparente para uma. E/ou metalinguagem inferida, quando a cena ficcional em um carro lembra a cena real da própria ficção. E/ou a combinação de retirar uma personagem deslocada de uma cena e a inserir em outro meio, fazendo com que o encaixe seja acertado.

“Um Dia de Chuva em Nova York” é também um filme coral, por dividir núcleos, lugares e motivações, em que a câmera passeia entre eles, os acompanhando. Aqui, “o tempo voa de classe econômica” com “rebelião, hostilidade, altas expectativas e as indecisões do querer”, entre confissões diretas e resolutas. Sim, tudo para explicitar o amor incondicional por New York (“preciso de monóxido de carbono para sobreviver”) e seu final feliz e altamente egocêntrico.

 

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