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Ultravioleta e a Gangue das Cuspidoras de Sangue

Memórias de uma vida efêmera

Por Bernardo Castro

Durante o É Tudo Verdade 2022

Ultravioleta e a Gangue das Cuspidoras de Sangue

“Como raios ultravioletas, a recordação mostra a cada um, no livro da vida, uma escrita que, invisível, na condição de profecia, glosava o texto.”, de Walter Benjamin. O mais novo documentário do diretor francês Robin Hunziger, em colaboração com ninguém mais ninguém menos que sua própria mãe Claudie Hunzinger, apresenta uma história um tanto quanto original de maneira ímpar. Após a morte de sua avó Emma, sua mãe Claudie encontrou uma série de cartas e fotos cuidadosamente preservadas enviadas por uma garota chamada Marcelle. Deste material, surgiu a ideia de traduzir para o campo da sétima arte. Assim surgiu “Ultravioleta e a Gangue das Cuspidoras de Sangue”, presente na seleção da Competição Internacional de Longas e Média-Metragens do Festival É Tudo Verdade.

Acompanha-se a história de amor entre a jovem Marcelle e a falecida avó do realizador, duas estudantes de Dijon até serem separadas pela descoberta da enfermidade da primeira. Quando ela é mandada para um sanatório, conhece outras garotas passando por situações semelhantes e forma a já mencionada Gangue das Cuspidoras de Sangue. Tudo é contado a partir desse discurso indireto livre, intercalando entre leituras na íntegra das cartas de Marcelle com uma narração onisciente. A priori, essa dinâmica se mostra um tanto confusa para quem está acompanhando a trama, que parece não discernir onde começa e termina a participação da narradora.

Com um tempo, a atuação se destaca, explicitando o incrível trabalho de direção de atores e dando a dinâmica que as cenas demandam. Com limitações no orçamento e nos recursos, uma vez que só se teve acesso às fotos da avó e às cartas lidas, a equipe criativa encontrou uma saída brilhante para a elaboração. Para dar suporte ao roteiro com a escassez de informações, a supracitada narração onisciente é um exercício de conjecturar e concatenar as missivas com fatos oriundos de fontes externas e algo de ficcional, que adicionam camadas complexas à narrativa, desenvolvem personagens e estabelecem arcos dramáticos. Exemplo disso são alguns elementos da Jornada do Herói, como a saída do mundo comum e o choque entre os dois mundos. As dinâmicas entre Emma e Marcelle nos últimos atos elucidam esta tese. Da forma como Emma se sente uma intrusa no ambiente, denota-se a mudança de sua amada enquanto esteve imersa nesse “novo mundo” alheio a ela. Mais uma vez, a teoria documental moderna é observada.

A solução para o problema da falta de material visual foi ainda mais brilhante, em virtude do uso de imagens de arquivo e excertos de obras até consagradas, a exemplo de “Meshes of Afternoon” da cineasta Maya Deren. Uma mínima intervenção na curadoria e na montagem dos filmes analógicos é percebida, evitando a crítica a falta de originalidade e à apropriação por parte de Robin Hunzinger. O som, no entanto, não é um forte de “Ultravioleta e a Gangue das Cuspidoras de Sangue”. Quando não repete a mesma faixa ad aeternum, a equipe responsável pela sonoridade apodera-se de uma gama ampla de gêneros para a trilha sonora, o que traz uma certa inconsistência e gera um leve sentimento de estranheza com suas entradas abruptas e desnorteantes. Não vale entrar no mérito dos ruídos ao fundo, pois estes fazem parte do charme do analógico.

Apesar de se tratar de uma não-ficção, aparenta ser uma amálgama de elementos recorrentes na produção de massa, vistos em “A Culpa é das Estrelas”, “Na Natureza Selvagem”, “os 7 maridos de Evelyn Hugo”, dentre outros. Ao contrário do que se pode entender do que foi dito, existe uma tremenda complexidade no enredo, onde debates filosóficos são constantemente incitados não só pelas cartas, como pela história em si. Questões como a efemeridade da vida, o poder da recordação e a crítica a sociedade taxativa e intransigente da época. A frente disso, está a principal discussão de “Ultravioleta e a Gangue das Cuspidoras de Sangue”: o valor da memória, que, como diz Bergson no trecho recorrentemente mencionado no longa, é a única capaz de reviver uma pessoa. Uma reflexão interessante que o filme propicia ao espectador atento é o de entender a importância dessa máxima tanto para Robin e sua mãe no processo de aceitação da morte da matriarca da família, quanto para o contexto da história, um lugar onde a morte paira e sua presença é palpável.

3 Nota do Crítico 5 1

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