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Twinless – Um Gêmeo a Menos

Comédia como fuga

Por Vitor Velloso

Festival de Sundance 2025

Twinless – Um Gêmeo a Menos

James Sweeney é um ator carismático. Esse carisma é visto em seu filme de 2019, “Almas Gêmeas”, e reaparece em seu novo projeto, “Twinless – Um Gêmeo a Menos”, mas com algumas notas dramáticas acima de seu antecessor. Nesse caminho, há diferentes perspectivas que contam a favor ou contra o filme; tudo depende de como o espectador encara certas tendências da produção.

Se, por um lado, a ideia da narrativa é interessante e pode suscitar interesse nas diferentes camadas dramáticas que cada personagem possui, tendo em vista as relações entre eles, por outro, a mudança de protagonista e o enviesamento para um lugar-comum, talvez não otimista, mas singelo, fazem de “Twinless – Um Gêmeo a Menos” o irmão perdido de “Sorry, Baby“, de Eva Victor, com o perdão da piada infame. Pois a forma de lidar com temáticas pesadas guarda algumas semelhanças. Ambos os filmes tentam trabalhar a comédia para encarar os problemas de seus personagens; a diferença é que o filme de Eva encara suas questões de frente, e é justamente nesse choque brutal entre esses “dois universos” que o longa funciona.

O filme de James Sweeney é mais conservador nesses termos, ou seja, vai tangenciando suas temáticas e fingindo uma certa normalidade, dentro de seu caráter excêntrico, até revelar sua mão e inverter a perspectiva que vinha sendo desenvolvida até então no projeto. Essa jogada é interessante por não se prender ao caráter óbvio de um plot twist que tornaria o filme insuportavelmente previsível, mas traz outra noção, a de performance. Aqui, há uma dimensão de cumprir com um certo “tipo” que o roteiro constrói, ligada ao constrangimento via exclusão social e à falta de trato com determinadas circunstâncias, mas isso acaba se tornando cansativo pelo esforço em manter essa estrutura tipificada, utilizando parte de outro arquétipo como contraponto, ainda que de forma fantasmagórica.

A importância de Dylan O’Brien para o funcionamento de “Twinless – Um Gêmeo a Menos” é realmente enorme nesse sentido. Por um lado, ele interpreta, ainda que brevemente, Rocky, que representa um tipo, a oposição de Dennis, vivido por James Sweeney, ou quase isso. Por outro, interpreta Roman, devastado emocionalmente pela morte do irmão, procurando um ombro para apoiar frustrações, emoções e sentimentos, que encontra em Dennis, em uma amizade que pode funcionar de forma simbiótica e complementar. Contudo, existe um conflito na estrutura da produção, pois, apesar de Dylan O’Brien ser o grande destaque aqui, com uma interpretação que não deixa as explosões do personagem saírem do controle e se tornarem constrangedoras, algo que destruiria completamente o desenvolvimento dramático, há ainda assim uma espécie de tensão constante tentando escapar por meio da fisicalidade que o ator impõe ao personagem. Isso ocorre mesmo dentro de uma dualidade pouco criativa: em um momento ele parece dopado, em outro está socando alguém.

De toda forma, James Sweeney parece revelar uma certa tendência egoica, ao direcionar a câmera para si e para o caráter blasé de seu personagem, e, novamente, esse tipo de figura inunda todo o projeto. Neste caso, isso não funciona tão bem. Daí a comparação com “Sorry, Baby” pois, além da comicidade como refúgio, ambos os projetos encontram nessa tipificação dramática uma saída para o imbróglio de suas temáticas, mas, no filme de James, o resultado acaba ficando tão monótono quanto a expressividade de seu personagem. Por essa razão, a trilha sonora, assinada por Jung Jae-il, de “Parasita” (2019), e a fotografia de Nikola Boyanov funcionam de forma quase maniqueísta, garantindo que o espectador não perca nenhuma trama, subtrama ou pensamento de Dennis enquanto os acontecimentos se desenrolam nessa narrativa rocambolesca. Aliás, o filme faz tanta questão de ser didático que chega a dividir a tela para mostrar ações diferentes em um mesmo ambiente.

“Twinless – Um Gêmeo a Menos” é interessante até o ponto em que não se assume excêntrico demais ou excessivamente descolado. Consegue destaque na relação carismática entre os dois personagens, apresenta um Dylan O’Brien que nunca tínhamos visto, nem imaginávamos, e traz um trabalho inspirado de Greg Cotten na fotografia, que, mesmo recorrendo a algumas decisões de lugar-comum, possui momentos de destaque, especialmente nos primeiros trinta minutos. Aliás, até a cena frontal do atropelamento, o funcionamento do filme como um todo parece mais fluido e menos dependente de gatilhos simples, mas ainda assim consegue ser carismático, como James e como Dennis.

3 Nota do Crítico 5 1

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