Três Estranhos Idênticos

Inato ou adquirido?

Por João Lanari Bo

Festival de Sundance 2018

“Três estranhos idênticos”, de Tim Wardle, ganhou o prêmio especial do júri de documentário em 2018, no Festival de Sundance: o assunto é cristalino; em 1980, no estado de Nova York, três jovens que foram adotados se conhecem e descobrem que são trigêmeos separados no nascimento. A narrativa sobe e desce, como uma montanha russa, mas…num documentário? Com a explosão do streaming, a linguagem documental percebeu que novos territórios não lhe eram estranhos. Se o formato do documentário tradicional tendia a assemelhar-se ao estatuto das ciências sociais – um sujeito do conhecimento nomeia um objeto de pesquisa e vai ao campo, mesmo que enfurnado no gabinete – os produtos atuais, que disputam o tempo de consumo com uma enxurrada de ficções, serializadas ou não, tiveram de incorporar novas e complexas estratégias, para satisfazer espectadores exigentes. No documentário em tela, o aspecto mais interessante é a parcimônia na revelação das respostas: a cenourinha está lá, à nossa frente, atiçando a curiosidade. Com habilidade, a narrativa revela respostas parciais, nos intervalos entre blocos narrativos, concedendo tempo necessário para processamento das novidades – mas um resto de mistério permanece, surpreendendo e confundindo. Os mistérios do filme são confusos porque são surpreendentes, e vice-versa.

Tudo começa com o depoimento de Bobby, jovial e eufórico, dirigindo seu Volvo 1970 para o primeiro dia de aula num community college das redondezas – e é recebido com beijos e abraços, mesmo sem conhecer ninguém. Até que um desconhecido, trêmulo, pergunta: você foi adotado? em que dia nasceu? A primeira revelação: ele tinha um gêmeo idêntico do qual nada sabia. Também nascido em 12 de julho de 1961, também adotado. No mesmo dia, pegou a estrada para Long Island afim de encontrar seu duplo, Eddy. Logo, a história dos “Três estranhos idênticos” vaza para os jornais: um terceiro irmão, um trigêmeo idêntico, David, se reconheceu nas fotos de Bobby e Eddie, e se apresenta. Entre a surpresa e a incredulidade, os três descobrem-se clones um do outro, nos gestos, aparência e alegria. A festa começou, no circuito de talk shows da TV: Phil Donahue, o top na audiência da época, reage entre o atônito e o assombro. Eles fumam o mesmo cigarro, Marlboro; gostam de garotas mais velhas para namorar; e faziam luta esportiva na escola. O sorriso colgate do trio sugere uma interioridade igualmente idêntica. Uma breve aparição no cult “Procura-se Susan desesperadamente”, longa de Susan Seidelman, de 1985, quando cruzam com Madonna em uma portaria, eterniza a magia do encontro.

Mas, a pergunta que não quer calar: por que os trigêmeos foram separados? Quem acolheu os trigêmeos logo depois do nascimento foi a Agência Louise Wise de adoção. Aconselhada por Viola Bernard, psiquiatra reputada da cidade de Nova York, a agência adotou a prática, no início dos anos 1960, de enviar gêmeos para lares diferentes sem indicar aos pais adotivos sobre a existência de irmãos ou irmãs, com o objetivo de auxiliar pesquisas científicas. Naquela época não era uma prática questionável eticamente: duas décadas depois, passou a ser, como é hoje – para recrutar voluntários em qualquer pesquisa ou trabalho científico, é preciso consentimento e observância de protocolos rigorosos. Na década de 1960, acreditava-se que separar órfãos gêmeos ou trigêmeos proporcionaria uma oportunidade melhor para cada um forjar sua identidade independente: acompanhar essa evolução forneceria dados preciosos para os pesquisadores. Para testar essa hipótese, Bobby, Eddy e David foram deliberadamente atribuídos a famílias específicas como parte de um estudo secreto coordenado pelo psicanalista Peter Neubauer, judeu austríaco que fugiu do nazismo para a Suíça em seguida para os Estados Unidos, onde chegou em 1941. Louise Wise, descendente de uma rica família judia alemã, fundou a agência em 1916 para conectar crianças órfãs e pobres de origem judaica, sobretudo do Leste europeu, com novas famílias: seu marido era um rabino proeminente na comunidade e entusiasta da causa. Os “Três estranhos idênticos” são filhos de mãe biológica judia e foram criados por três famílias, todas judias. A agência colocou os meninos em um raio de 160 quilômetros um do outro, em parte, presume-se, para facilitar o estudo de Neubauer, que faria entrevistas com as crianças durante os primeiros anos de crescimento.

A questão de fundo do documentário, subjacente à narrativa, é o debate a respeito do grau em que uma característica comportamental é inata, de nascença, como se diz: ou é adquirida, através da interação com o ambiente físico e sociocultural. Este é um longo debate: atravessou milênios, civilizações e aterrissou na era científica/tecnológica em que vivemos – apesar dos detratores de plantão que insistem em negar a ciência. É preciso um conjunto interdisciplinar de saberes para dar conta do tema, que é um dos pilares da genômica moderna. Inúmeros estudos com gêmeos são feitos pelo mundo: nos EUA um dos centros mais conhecidos está na Universidade de Minnesota. O problema, no caso de Bobby, Eddy e David, foi o segredo: ninguém sabia de nada. E os antecedentes são sinistros: o sádico médico nazista, Joseph Mengele, era obsessivo em fazer experiências com gêmeos, na maioria judeus em Auschwitz – não havia consentimentos ou qualquer tipo de conduta ética. O estudo feito por Peter Neubauer não foi concluído: ele faleceu em 2008, e todo o material da pesquisa foi arquivado na Universidade de Yale, com selo de sigilo até 2065.

Trailer

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