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Ficha Técnica

Direção: Domingos Oliveira
Roteiro: Domingos Oliveira
Elenco: Claudia Abreu, Paloma Riani, Pedro Cardoso, Priscilla Rozenbaum e Ricardo Kosovski
Fotografia: Luiz Paulo Nenen
Música: Domingos Oliveira, Bernardo Gebara
Edição: Jordana Berg
Produção: Renata Paschoal
Distribuidora: Filmes do Estação
Duração: 80 minutos
País: Brasil
Ano: 2008
COTAÇÃO: MUITO BOM


A opinião

Domingos de Oliveira imprime em sua trajetória profissional as funções de diretor, dramaturgo, poeta “maldito” e “existencial” e ator. Ele consegue definir de forma humanizada características intrínsecas de seus personagens, utilizando sarcasmo inteligente e perspicaz. A sagacidade apresentada pelo humor escrachado e debochado não possui o papel de julgar e sim de retratar elementos pessoais de cada um dos indivíduos. A sua filmografia mescla nostalgia, classicismo, lembrança com modernidade – por usar o cotidiano em cada um dos seus filmes. É extremamente crítico, embrenhando-se na poesia analítica da base concreta. Considerado o nosso Woody Allen brasileiro, Domingos insere questionamentos, neuroses, surrealismo – possível e crível – no que faz. Ele passeia pela religião e pelo profano, pela elegância e pela vulgaridade, pela pena e pela culpa.

As idiossincrasias interpretadas podem ou não ser autobiográficas e ou podem ser apenas de percepções mundanas. A sua obra permite a quem se permite uma experiência sensorial única, rica e deliberadamente poética. Esse preâmbulo ajuda a entender o universo de seu novo longa “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais”, que se comporta como um projeto autoral. A narrativa pessoal apresenta narrativa híbrida. Há conversas interativas, histórias digressionais – que servem como explicações do que é narrado, misturando teatro e cinema. Exprime um realismo objetivo, gerando a ontologia, que trata da natureza do ser, da existência dos entes e das questões metafísicas em geral, presentes em várias obras de arte referenciadas no roteiro do próprio diretor. “Emprestar ao cinema poderes que o teatro tem”, diz Domingos explicando aos seus espectadores a abertura de sua obra, tendo os bastidores como ponto de partida (durante os créditos iniciais). O filme acontece no Rio de Janeiro. As cenas dos espetáculos teatrais incluem o Teatro Dulcina e o ATL Hall (2002).

Essa mistura figura entre a objetividade ao vivo (porém gravado) e a ficção gravada (porém editada). A trama gira em torno de cinco histórias, baseadas em cartas recebidas (reais). O elo de ligação encontra-se na personificação (concreta) do Amor (que utiliza inúmeros artifícios com o objetivo de ajudar aos amantes a descoberta e ou estimulo das infinitas possibilidades do prazer e da paixão, funcionando como alternativa de análise psicológica. No intervalo dessas histórias, há animações pornográficas – e deboches críticos – do órgão sexual masculino. O pênis (ou a “piroca”) é o elemento principal. Tudo gira em torno dele. A narrativa inclui também conversas (embates) de outro realismo metalingüístico. O senso de humor Epifânio é recorrente. Isso traça o equilíbrio entre a comédia e o drama. Logo, é um filme teatro.

“Gatorade de piroca” vira significado do remédio Viagra. Pululam simbolismos fálicos transpassados por ações e ou palavras. É ácido, direto e sem pudor. O diretor consegue a entrega dos protagonistas, já que neste caso não há um principal. O texto é incrível. Infere aos Charles: Bukowski e Baudelaire. “Só há um modo de acabar com a tentação: é ceder”, diz-se. A atmosfera convive com demônios internos, externos e “vizinhos”, este último considerado “um problema”. Se em uma história, personagens históricos e teatrais são usados, em outra o bate-papo virtual e internetesco ganha atenção. Como disse, o trabalho de interpretação é primordial ao convencimento da trama. Não adianta um texto magnífico se os atores não funcionam. Aqui, a naturalidade com que esses interpretes imprimem em seus papéis desencadeia o equilíbrio. Eles são exagerados quando precisam ser. Sérios quando necessário. Intensos e engraçados quando solicitados.

“Quando fico apaixonado me retraio. Por isso não liguei”, diz-se gerando a ideia do encontro na escuridão total. Metafórico e existencial. A fotografia ora teatral, ora interativa, tem pixels, um dos motivos pela realização em digital (transformado em 35mm no produto finalizado). Há o detalhe do cigarro aceso, a luz no elevador, as sombras, espelhos retorcidos. É teatro emprestado ao cinema. Domingos tem razão em sua definição. “Fomos traídos pela luz da geladeira”, concretiza-se a frase poética. “A única coisa que você pode fazer é oferecer o amor. A pessoa aceita ou não”, diz Domingos na mesa de bastidores ficcional, que motiva outro questionamento: como a peça irá acabar? Acaba em aberto, com auto-ironia e com um monologo da “piroca”.

Concluindo, um filme excelente que merece ser visto. É inteligente, perspicaz e vulgar (sem ser pornográfico), utilizando como sutil referencia o universo de Carlos Zéfiro. Não há nudez. Logo na primeira carta, personagens “fodem” com roupa e com óculos. A explicação para isso veio no dia de sua 1ª exibição no Festival do Rio, quando o ator Pedro Cardoso fez uma declaração (manifesto) contra o uso da nudez no cinema e na televisão brasileira, como forma de exploração das atrizes. Recomendo. Finalizo com a sinopse oficial: “Os personagens vivem situações decisivas, como a mulher que descobre que o amante usava remédio para aumentar a potência; o casal que resolve ter outros parceiros; o farmacêutico que seduz a melhor amiga; o homem que se descobre atraído por outros homens, mesmo amando a mulher; e o casal que se conheceu via internet e sempre se encontrava no escuro, até que o acaso revela mais do que gostariam”.

O Diretor

Domingos José Soares de Oliveira (Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1936) é um ator, dramaturgo e cineasta brasileiro. Licenciado em Engenharia pelo ENE, nunca trabalhou naquela área já que depois de se ter envolvido no teatro amador, começou a escrever e a realizar para cinema. A sua primeira longa-metragem, intitulada Todas as mulheres do mundo, foi realizada em 1966, sendo já autor de mais de 20 peças teatrais e tendo dirigido vários filmes. Atualmente tem um programa no Canal Brasil, Todos os homens do mundo, no qual Priscilla Rozenbaum, sua atual esposa, entrevista, intermediada por falas de Domingos Oliveira sobre cada entrevistado, profissionais masculinos do cinema, teatro, da literatura e televisão. É pai da atriz e escritora Maria Mariana (da série da Tv Brasil “Um Menino muito Maluquinho”).

Filmografia

2008 – Todo Mundo Tem Problemas Sexuais
2008 – Juventude (também como ator)
2006 – Carreiras (também como ator)
2005 – Feminices (também como ator)
2002 – Separações (também como ator)
1997 – Amores (também como ator)
1978 – Vida, Vida
1977 – Teu Tua
1973 – Deliciosas Traições do Amor (também como ator)
1971 – A Culpa
1970 – É Simonal
1969 – As Duas Faces da Moeda
1967 – Edu, Coração de Ouro
1966 – Todas as Mulheres do Mundo

Apenas como ator

2004 – Redentor
1975 – Os Maniacos Eróticos
1972 – Sambizanga

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  • Avatar

    Seu texto é eloquente e bastante linear, o que torna sua crítica bastante minimalista, o que é muito bom.
    Mas como o outro lado da moeda, por ser um pouco tão extensa, acredito que aos olhos de outros, pode se tornar cansativa ou deixar com aquela preguiça de ler até o final, vide que é cada dia mais escasso os toques onlines dos sites informativos.
    Abs.
    Marwin

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