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The Beatles: Get Back

Get back to where you once belonged

Por João Lanari Bo

Disney Plus

The Beatles: Get Back

“The Beatles: Get Back” é mais do que um documentário: é um doc-reality, um documentário sobre uma experiência de realidade – seja lá o que isso quer dizer. São quase 8 horas, divididas em três episódios, sobre um mergulho inaudito na pura confecção de um dos maiores, senão o maior, mito pop da era moderna – The Beatles. De cara, cabe um disclaimer: a palavra “mito” anda meio desgastada por essas bandas, mas a tendência é que vire essa página e retome sua semântica histórica. Pois o mito, tomando a palavra na acepção filosófica, tem um sentido religioso: um dos dramas do mundo tecnológico contemporâneo é justamente a perda desse sentido, o fato de o mito, dizendo mais prosaicamente, ter perdido sua atualidade. A expressão artística, através da poesia, ilumina um caminho que indica a essência mítica de um povo: nas palavras do filósofo Vicente Ferreira da Silva, o artista é uma fresta por onde o impulso criador continua a exercer seu milagroso poderio, um continuador da obra divina. O mergulho no processo criativo, ou na realidade criativa, dos quatro rapazes de Liverpool – em estúdios de gravação improvisados em Londres, durante o mês de janeiro de 1969 – configura, portanto, uma ressignificação do mito, uma volta às origens divinas da criação, uma reafirmação do poder da arte como instância de atualização simbólica.

Essa pequena introdução pode parecer hiperbólica, sobretudo porque o tempo mítico que estamos falando – os poucos, mas intensos anos em que os Beatles estiveram em atividade na década de 60 – pertencem ao passado, tornaram-se, em uma palavra, mito. Uma década por si mesma mitologizada, como se fosse portadora de um vírus rebelde e transformador. A virada para os 70’s é costumeiramente caracterizada como um landing castrador, uma aterrisagem na dura realidade dos poderes instituídos. Um dos signos dessa virada é o fim dos Beatles, a ruptura carnal do sonho emancipador de tudo o que prometiam os anos revolucionários dos 60’s, pelo menos no Ocidente industrializado (na América Latina a história é um pouco diferente…). “The Beatles: Get Back” revisita a confecção do mito num momento crucial, sua finitude conjuntural: John, Paul, George e Ringo, depois de anos de estrada comum, veem-se premidos por desejos conflitantes, por ambições diferenciadas, pelo cansaço. Quatro egos de repente se dão conta da necessidade de expansão individual, dado que o formato quarteto não comportaria mais o compartilhamento de tempo e espaço. John, o protesto, o engajamento, a necessidade de explicitar os dilemas do mundo; Paul, a volúpia da frase musical, a emoção da harmonia; George, a meditação, música como transcendência; e Ringo, bem, é o Ringo, de poucas palavras e decisivo. Assistir às imagens restauradas do original 16 mm – eram 60 horas de filme e 150 de áudio – revela-se uma experiência mítica per se: a imagem brilha, mas sem granulação, produzindo um efeito espetacular de transparência, mesmo que artificial. A sensação é de imersão num passado que é presente, um presente cujo desfecho é incerto.

Contribuem para esse resultado o fotógrafo Anthony Richmond, e, sobretudo, o diretor do doc-reality, Peter Jackson. Sabemos que essas sessões de erros e acertos, de brincadeiras e cantorias juvenis, germinariam nos dois últimos discos do grupo – os fabulosos Let It Be e Abbey Road. A edição, misteriosamente, parece privilegiar o áudio: ao contrário dos reality shows convencionais, o close e os planos próximos não funcionam como condutor de conflitos, é mais um contraponto de dispersão. Sabemos, também, que a inquietude de George – no segundo episódio ele abandona a gravação, declarando secamente I’m out, look for another guitarrist – acabaria por resultar, meses depois, no seu afastamento. Sabemos, hélas, que a proximidade exuberante de Lennon e McCartney ao longo dessas longas horas – cantando clássicos dos 50’s, Blue Sued Shoes, palhaçadas e caretas – se perderia nos anos seguintes, substituída por uma insidiosa amargura. Tudo isso, em última análise, é o que torna “The Beatles: Get Back” tão impactante: um pessoal egresso do working class no pós-guerra britânico se reúne para cantar, fascinados pelo rock & blues americano, sem preconceitos raciais – e vieram a ser os principais responsáveis por um fenômeno moderno de enormes repercussões, a globalização da música pop. Naquele momento no topo da cadeia produtiva da indústria fonográfica, os Beatles resolvem tocar e gravar juntos, ao vivo, sem overdubs, culminando com a catarse do show no terraço – captada por 10 câmeras, a última apresentação pública da banda, com o magnífico Billy Preston nos teclados. Tocar no telhado, uma decisão deliciosamente improvisada, é a projeção definitiva para a realidade etérea do mito.

Numa época em que as fake news eram praticamente exclusividade dos tabloides jornalísticos, é hilário assistir Paul lendo jocosamente fofocas e maledicências, em particular sobre o signo do estranhamento que era Yoko Ono. Get back to where you once belonged, dear comrades!

5 Nota do Crítico 5 1

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