Technoboss
Quando a loucura salva o presente
Por Fabricio Duque
Durante o Festival do Rio 2019
Cada vez o cinema português potencializa mais a estranheza em suas obras, galgando um tom acima da personificação da loucura e imprimindo na narrativa uma esquizofrenia-surto que desconstrói a própria linguagem já nonsense. Há uma ruptura existencialista, quando intervenções de metalinguagem desnorteiam a história e redefinem a condução do espectador. Exibido no Festival de Locarno, “Technoboss”, que passou pelo Festival de Rio 2019, comprova a autoralidade da produtora O Som e A Fúria, que, na mesma mostra carioca, apresentou “O Filme do Bruno Aleixo”. Aqui, o escárnio é a força motriz. Um auto bullying contornado de cumplicidade e de comportamento intrínseco, entre a ingenuidade do agir das personagens e a perspicácia afiada-ácida das palavras, adjetivadas e sistematicamente definidoras.
“Technoboss”, de João Nicolau (de “John From”, “A Espada e a Rosa” e do documentário “No Trilho dos Naturalistas: Moçambique“), apresenta-se como uma comédia de situações, em que a vida transcende a realidade e viaja a um lisérgico mundo encantado de vívidos sonhos. É conceitual quando realoca ângulos não convencionais (ou melhor, surreais) a fim de retratar um “pedacinho da vida”. Há um que de Mel Brooks com Monty Python com Jacques Tati e com a essência portuguesa de ser, que transforma tipos (como o chefe humanista e tolerante), inicialmente de cartoons, em figuras de observação, ambientadas em planos naturalistas e contemplativos de tempo suspenso nos milésimos cotidianos da vida. “Fume, mas não queime as calças”, diz-se.
O longa-metragem quer captar os pormenores da vida. Aqueles momentos banais, ordinários e sem importância, como “completar frases” e/ou a experiência sensorial mecânica dos sensores de obras de arte. Principalmente pela fotografia de película, saturada ao brilho, que inicialmente cria um excêntrico contraste ao inserir um musical orgânico de cantoria no carro (com ares de amadorismo), de sonora experiência etérea, cuja ambiência (de imagem estendida) é potencializada pela aproximação da câmera subjetiva, de “valor flutuante” e de proposital encenação mais caseira.
A grande maestria de “Technoboss” é a de não pretender instaurar a estranheza, ainda que a force em alguns momentos com a necessidade de naturalizar a ingenuidade à moda de Mister Bean. É uma construção espontânea, desenfreada, sensível, amável, piegas, instintiva, passional, oportunista e descabida, entre “competências específicas”, “telefone do céu” (que ajuda e conversa), “donzelas aprisionadas” e “os estúpidos filhos de Deus”. Nós somos imersos na perda total da razão, em um loucura que se desliga da lúdica normalidade e se conecta com a voz do “Boss”, o próprio dono do Universo.
É a fantasia do real. Um ensaio de voz em que todos cantam, inclusive um coral de escoteiros. Há uma insanidade compartilhada, que, de tão delirante, somos distanciados da própria história. É no mínimo uma experiência curiosa e altamente diferente, que atravessa países, “abismos visitados” e “ares rarefeitos”, se transmuta em um formal anti-naturalismo e muda de língua. Sim, o filme fica ainda mais surreal com seus “vícios”, “intervenções fleumáticas”, “formigas sem fígados”, “sabotagens”, escuridões e claridades.
“Technoboss”, vencedor do Grande Prêmio do Júri do Sevilla International Film Festival 2019, é sobre a existência de Luís Rovisco (o ator Miguel Lobo Antunes), que não se dá por vencido nem na velhice e continua a trabalhar com seus sessenta anos, percorrendo o país para completar suas “missões”. É acima de tudo um filme sobre o futuro. Sobre o que fazer quando o presente se aposentar. Quando ganhar a rotina do tédio do nada. É um surto-processo. Da resiliência à resignação.
No site da O Som e a Fúria, o realizador João Nicolau é biografado que “nasceu em Lisboa e, por isso, nunca percebeu nem nunca há de perceber nada sobre o Médio Oriente”. A produtora inspirou seu nome no romance homônimo escrito por William Faulkner (que insere tipos de narrativa e a técnica conhecida como fluxo de consciência). Esse é o humor negro tipicamente português, politicamente incorreto, direto, sem papas na língua e agressivamente inocente. Um sarcasmo mais debochado. Uma cômica vitimização. Adentrar em uma obra do cinema de Portugal é receber uma carga de transgressão desconstruída e blasé da linguagem, que aumenta o tom de José Saramago até encontrar esquetes de particularidades de um povo, que se retroalimenta das próprias e naturais idiossincrasias verborrágicas. “Technoboss” é uma insana viagem às entranhas conflituosas da alma humano, que protege sinapses com a perda da razão. Vivenciada, descontínua e alienante.