O Filme do Bruno Aleixo

Personagem que funciona de forma rápida

Por Pedro Guedes

Durante o Festival do Rio 2019

Criado em meados dos anos 2000 para protagonizar um falso talk-show no canal SIC Radical, de Portugal, o urso/cão Bruno Aleixo se tornou uma sensação na Internet graças a vários pequenos vídeos que o traziam em situações ligeiras e nos quais dividia espaço com outros personagens igualmente absurdos, como um busto que falava (e cujo nome era, portanto, Busto) e um boneco que parecia um homem das cavernas (ou sei lá o que fosse aquilo). Não era o tipo de protagonista que se esperaria de um longa-metragem de 90 minutos – no entanto, “O Filme do Bruno Aleixo” foi feito e, para o bem ou para o mal, mantém a estética e o senso de humor com os quais os fãs do personagem se acostumaram ao longo dos anos.

Escrito e dirigido por João Moreira e Pedro Santo (os criadores do Bruno Aleixo), o filme dura cerca de uma hora e meia e gira em torno basicamente do personagem-título depois de receber uma proposta de Hollywood para produzir um longa a seu respeito. Sem saber o que fazer, porém, Bruno se senta a uma mesa com outros três ou quatro amigos e começa a discutir ideias que eventualmente possam ser transformadas em um filme – e, ao longo da projeção, estas ideias são retratadas sempre da forma mais absurda possível, alternando entre uma obra de ação, uma história de terror à moda antiga e até mesmo (juro!) uma telenovela nos moldes das produzidas pela Rede Globo.

Brincando constantemente com as possibilidades que a linguagem audiovisual tende a oferecer, “O Filme do Bruno Aleixo” se revela uma experiência formalmente divertida, ao menos, durante sua metade inicial, já que o tempo todo parece disposto a surpreender o espectador, por exemplo, ao pausar a narrativa para adicionar um intervalo comercial (como se isto fosse um product placement comum) e ao subitamente “congelar” o frame para mudar as vozes dos atores que se encontram em cena, dublando-os a fim de tornar o filme naturalmente acessível para o público brasileiro (o quê?). Além disso, o conceito por trás dos personagens é tão absurdo que, em alguns momentos, confesso que me peguei rindo não do que eles falavam, mas do simples fato de estar diante de composições como aquelas (como não achar graça de um polvo de brinquedo que conversa com um busto enquanto faz uma vozinha fina?).

Em contrapartida, por mais espontâneo e divertido que seja boa parte da projeção, chega um momento em que “O Filme do Bruno Aleixo” começa a perder seu frescor, como se não soubesse mais para onde ir com suas criações e com as histórias narradas por estas. Assim, em vez de manter o ritmo e o bom humor que vinha sendo preservado desde o início, o longa passa a investir em situações que nem de longe remetem ao dinamismo daquelas apresentadas no começo, tornando-se redundante, por exemplo, ao interromper a projeção por dois ou três minutos para se concentrar em uma piadinha na qual certos personagens cruzam uma rua e têm sempre que repetir a ação por causa de um ou outro detalhezinho bobo que o narrador deixou escapar. Para piorar, o filme acha engraçadíssima a ideia de deixar o tal “filme do Bruno Aleixo” de lado para tentar imaginar como seriam os filmes dos amigos do personagem-título – uma ideia que, na prática, não é tão engraçada assim, servindo mais como interrupção narrativa do que como uma piada eficiente.

No fim das contas, a impressão que fica é a de que Bruno Aleixo é um personagem que pode até funcionar em situações isoladas e curtinhas (ou em esquetes de poucos minutos de duração, como comprova toda sua história pregressa na Internet), mas que custa a sustentar uma narrativa que se estenda de forma contínua ao longo de consideráveis 90 minutos de projeção. E não se enganem: há momentos divertidíssimos em “O Filme do Bruno Aleixo” – mas chega uma hora em que estes começam a ser sufocados pela decisão de criar um longa-metragem inteiro para conectá-los, resultando em uma experiência que, embora formalmente interessante e surtada, se torna um pouco cansativa depois de um tempinho. Não chega a ser uma decepção, mas… talvez o destino do Bruno Aleixo seja mesmo os videozinhos rápidos que costumam ser disponibilizados na Internet.

Trailer

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