Sutis Interferências

Artistas-espectros em tradução não literal

Por Fabricio Duque

Durante a Semana dos Realizadores 2016

Exibido na oitava edição da Semana dos Realizadores 2016, “Sutis Interferências” corrobora o cinema de sua realizadora Paula Gaitán. Uma arte etérea de viagem experimental. Uma sensorial personificação da própria existência. Por uma atmosfera de tempo parado lá de fora para assim traduzir o instante mais espontâneo-orgânico do presente. Sua narrativa livre e de tom caseiro encontra a estética da simplicidade sem ser simplista. Quando se diz que é uma experiência, é porque nós somos imersos interferências espectrais, quase um contato de terceiro grau em realidades paralelas, entre suas telas pretas e bastidores de ensaios.

“Sutis Interferências” apresenta-se como filme-processo. Que se faz durante o próprio linear. De uma ideia a partir de uma palavra e depois completando. Pensar e gravar. Um “diálogo”. Este documentário é um trabalho típico da Paula, por permitir pessoais parênteses-interferências idiossincráticas, com vulnerabilidades e brincadeiras espirituosas-cúmplices, por exemplo, a de que a diretora “fala muito”.  “Por que a música?”, pergunta aos protagonistas, o cantor-compositor norteamericano Arto Lindsay (mas que vive e trabalha no Rio de Janeiro) e o baterista norueguês Paal Nilssen-Love. “A música é uma reação natural”, responde-se. Em uma fotografia estilizada em preto-e-branco, entre fragmentos próximos, close, videoclipe contemplativo, foco e desfoque, formas, flash, imagens de arquivo (como o trem dos Irmãos Lumière), tudo quer a metafísica do encontro e suas “fronteiras que chegam ao som”.

O filme também pode ser definido como uma musical-show-homenagem, que ao inserir (ou deixar) os ruídos potencializados fora de sintonia, fornece maior veracidade ao “link tátil”. É uma tradução em imagens do que a Paula vê na música, à moda sonho-acordado da narrativa-sinapse do cineasta David Lynch. Constrói e esconde toda essa fantasmagórica psicodelia existencial dos retratos, esperas e tempo. “Sutis Interferências” continua a exploração colorada aos “borrões” para enxergar a essência mais íntima da criação artística (e sua anarquia-subversiva-híbrida), tentando aproximar o underground, MPB, Punk em uma única nota. Uma expansão “Tropicália”. Em determinado momento, quando o baterista “possuído”, suor e purpurina, nos “convida” pela câmera a entrar nos instrumentos tocados, nós somos remetidos automaticamente a “Whiplash: Em Busca da Perfeição”, de Damien Chazelle. A mesma emoção e catarse de sessões épicas estendidas.

“Sutis Interferências” é um estudo sobre o som, que mistura entrevistas, desconstruindo a própria forma inicialmente estruturada em sobreposições-interseção de imagens entre música e arte. De “nascer com a vontade de mexer no ar”. De “marcar presença”. “O ruído é uma visão mais ampla do som”, ensina-se mostrando as “frequências constantes” e a “resistência entre a dor e o prazer”. O “prazer do volume alto intenso”, argumento utilizado por Paula quando apresentou seu filme anterior “Noite”. Assim, este documentário quebra não somente as fronteiras cinematográficas, mais também descontinua a linearidade sensorial à la Jean-Luc Godard.

O que Paula quer nos dissociar de nossa própria realidade, criando uma universo “Matrix” e a relação do corpo/câmera com  a musica. Em 2019, o artista da “New Wave” ganhou mais um documentário, mais protocolar e menos experimental, “Arto Lindsay 4D”, de André Lavaquial, exibido no Festival do Rio. O espectador pode chegar a conclusão de que este na verdade não busca o protagonismo de Arto e/ou de Paal, e sim da própria diretora-roteirista-fotógrafa, visto que é seu olhar e sua perspectiva. Uma entrega compartilhada. Nós não podemos negar, a cineasta é a mais vanguardista de todas.

E assim consegue com sinceridade embasar suas escolhas e tentativas visuais, que nos faz lembrar das palavras de Kiko Goifman (de “Bixa Travesty”, que dirigiu co Claudia Priscilla): “A gente vai fazendo filme como quem ama e quem ama não sabe tudo”. A maestria de Paula está em aceitar a própria vulnerabilidade. Dessa forma, a pretensão e ingenuidade são retiradas e o que encontramos é um retrato-performance possível com altos, baixos, insights e uma emulsão pululante do criar. E de nunca podar a liberdade com o vício-alternativa do conservadorismo. É transgressor, lunático, esquizofrênico, intenso, neurótico, afinado, auto-destruidor, comparativo e surtado. “Sutis Interferências”, que é o que chamamos de filme-intimidade-particular por nos tornamos parte, representa alma e vida do artista. De um ser que precisa se desconectar da própria existência para gerar um som de conexão com outras sensibilidades.

Trailer

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