Socorro
Barcarena: o sacrifício ambiental e social
Por Giulia Dela Pace
Durante o Festival do Rio 2022
“Socorro”, de Susanna Lira, é um dos poucos nomes apropriados que podemos ver em filmes nacionais ultimamente. O curta-metragem consegue provocar as piores dores de cabeça e de estômago com a indignação sobre as injustiças e absurdos que o documentário traz em apenas dezesseis minutos. O filme é um grito desesperado, dolorosamente, inútil e silenciado da líder comunitária Socorro do Burajuba, moradora do município de Barcarena, no Pará, – local considerado como uma zona de “sacrifício” ambiental e, consequentemente, social.
Susanna Lira é uma dessas cineastas que não se pode perder de vista, pois além de saber o que se pode fazer com a linguagem cinematográfica – vide a cena com planos estáticos que arrancam lágrimas de raiva do mais frio espectador –, mesmo que com simplicidade, ela é especialista em Direitos Humanos e Biopolítica Criminal. Tema que sem sombra de dúvidas não foge da proposta do filme, pelo contrário: o curta retrata a vida de uma vítima de intoxicação por água contaminada e delatora de um crime ambiental – contaminação da água de Barcarena – que coloca em risco a vida dos moradores, fauna e flora da região. Entre seus filmes mais recentes, e que valem a pena conferir, estão: “A Mãe de Todas as Lutas” e “Legítima Defesa”.
“Socorro” é uma lembrança de que a câmera é uma arma e o cinema é político, especialmente na região norte do Brasil, como tem sido há vários anos – com projetos de ONG’s, como a “Vídeo nas Aldeias”, por exemplo, ou mesmo por iniciativa própria de povos indígenas e ribeirinhos que produzem cinema como forma de denúncia e resistência. O filme de Susanna Lira se inicia com filmagens de máquinas da empresa que contaminou a água na região, vazamento de barragens e a própria Socorro do Burajuba em meio a essas situações filmando aquilo que deve ser denunciado. Filmando os crimes que devem ser vistos e tomados como conhecimento por todos de um, dos muitos, procedimentos padrão de empresas que exploram a região norte do país.
“Socorro” é a verdade crua, portanto, não podemos esperar floreios. Mas um filme cru e com o clássico realismo jornalístico imagético do preto em branco, a fim de não causar distrações para além dos fatos que são postos ao longo do documentário. O curta é um dos tesouros do ano de 2022, após quatro anos de mandato de um desgoverno que massacrou povos originários e que ativamente atacou, junto às empresas, de forma planejada o meio ambiente e ameaçou consequentemente o bem mais precioso e básico: a água.