Sob Luz e Sombras

O belo e o cotidiano

Por Julhia Quadros

“Sob Luz e Sombras” (2012) dirigido por Júlio César Siqueira e produzido pela Cavídeo, retrata a vida, o processo criativo e a obra do fotógrafo J.M. Goes, que aborda o nu feminino, com um constante trabalho de conversa e consulta às suas modelos. O trabalho nos convida a acompanhar o dia a dia do artista em seu estúdio em seu apartamento, suas concepções, criações e ideias, suas opiniões e debates com as modelos, com quem ele sempre aprende, também, na hora de fazer seu trabalho. Ao longo da produção, J.M. Goes defende suas convicções e seus pontos de vista, que estão constantemente presentes em suas fotografias. É bem interessante a documentação do processo analógico desde a operação da câmera até a revelação química de seus filmes em detalhes.

Ao explicar sua visão sobre o corpo feminino, o fotógrafo especifica que o que o atrai é o mistério, a assimetria, para ele, a fotografia de partes separadas do corpo feminino era algo bastante burocrático e midiático. Para ele, a arte consiste em um olhar atento e na observação dos detalhes, explorando a geografia do corpo. Ele diz que as mulheres se vêem diferentes do que são nos espelhos e muitas vezes se criticam com um olhar mais duro. Apesar de ser problemática na contemporaneidade a hipersexualização do corpo feminino, sendo a mulher sempre uma representação no meio artístico e pouquíssimas vezes um sujeito de criação, os corpos vêm sendo belamente retratados desde a Antiguidade e se percebe que muitos pintores e escultores do período do Classicismo e sobretudo, o Barroco influenciam a obra do artista retratado no filme. Os resultados das obras de J. M. Goes são belos e revelam suas modelos sob um novo olhar, que, muitas vezes as agrada. Para atingir tal resultado, com diferença nas texturas e impressão de movimento, ele alega que utiliza apenas a luz e a sombra com o relevo, sem edição. 

Também é interessante a relação das modelos com o processo, como caracteriza o artista, “a sala desaparece e se torna só um estúdio”, há uma magia através do surgimento de diversas personagens interpretadas por estas mulheres enquanto são fotografadas. Com a maquiagem e os acessórios, elas posam constantemente para a câmera, sentindo-se seguras e confortáveis com seus corpos. São duas horas de criação conjunta delas e do fotógrafo. Ao ser interrogado sobre as maiores restrições das mulheres com os seus corpos neste momento, ele responde que elas reclamam principalmente de celulites e estrias.

Com a Direção de Fotografia de Júlio César Siqueira, em “Sob Luz e Sombras” há muitos planos fechados ou conjunto, de modo a evidenciar os detalhes do trabalho do fotógrafo e a individualidade das modelos, a interação entre eles, gerando um ambiente intimista de aproximação com o cotidiano do protagonista. Suas expectativas para cada trabalho, seus telefonemas e comentários são registrados, de modo a transmitir as particularidades do ofício de quem tem cada uma de suas fotos como uma filha e olha com orgulho para o que produziu ao longo de sua carreira. É algo interessante, ao se observar o trabalho de um artista, a análise dos processos para além da inspiração, isto traz um olhar mais direto e menos idealizado para a criação, em que a pessoa precisa ter, além de talento, pesquisa e dedicação e muitas vezes enfrentar diversos contratempos como a ausência de uma modelo esperada em uma diária. O documentário registra diversas mulheres que trabalham com J.M. Goes e muitas o têm como um amigo e conselheiro, conversam sobre a vida, sobre a beleza, estética e experiência, desta forma, compondo um processo plural de criação em conjunto, em que ele, com seu olhar e direção representa a beleza nas imagens.

Diante disto, é interessante observar esta propriedade do Cinema de sempre rever a si mesmo através das obras, principalmente ao tematizar a própria construção de imagens; a busca do belo, o processo analógico e o preto e branco das imagens feitas por J.M. Goes frente às imagens do cotidiano, digitais e coloridas filmadas por Siqueira. A imagem que observa frente à imagem que constrói. A beleza do posado contrastando com a naturalidade do olho que observa. É destes contrastes que se faz o ponto interessante desta produção, que é um retrato da criação fotográfica e artística. 

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