Skin – À Flor da Pele

Peles em regeneração

Por Fabricio Duque

Ódio ou execração. Uma aversão intensa provocada por raiva, medo ou injúria sofrida. Uma antipatia. Um rancor. Uma repulsa passional contra uma pessoa ou algo, desencadeando o desejo de destruir o seu objetivo. Estudos científicos de uma pesquisa inglesa comprovaram que amor e ódio pertencem a mesma área do cérebro (deixando sinais inequívocos e irracionais), e, assim, é impossível separar esses sentimentos. “A desativação provocada pelo ódio pode estar relacionada a uma mudança de atenção: o indivíduo para de se preocupar com o espaço exterior e passa a ter uma experiência interna associada com a ansiedade”, explica Semir Zeki, do University College London sobre o estudo, publicado em outubro na revista PLoS One. Este preâmbulo é unicamente para tentar embasar o leitor à temática do filme “Skin – À Flor da Pele” (2018), que estreia nos cinemas brasileiros, sobre uma possível entropia circular de um sentimento-pulsação retroalimentado, condicionado e ensinado ao longo de anos ininterruptos de um meio-seita familiar.

Essa grandeza termodinâmica que mede o grau de liberdade molecular de um sistema reacende o pavio do ódio estrutural. Um pêndulo cíclico de retorno à radicalidade de sentimentos e extermínio de qualquer diferença de raça e comportamento. Essa imatura desordem variante do agora, que prega a supremacia nazista da existência ariana, quase de “moleques fazendo pirraça” e de valentia “Nutella”, ganham força pela crença de que anarquia é impor vontades mandatórias. Talvez por isso que, “hipócrita” e unilateralmente, esse conservadorismo, pautado pela preservação bíblica dos conceitos não atualizados de família, sempre permaneça pop e na moda. Esta crítica desenvolve-se em controversas linhas sensoriais, em especial pela realidade do dia de ontem, que assaltou a ficção ao expor rachaduras de apoiadores “extremistas” do ex-presidente Donald Trump. Quando o Congresso dos Estados Unidos foi invadido, nós indivíduos sociais perdemos o norte e o controle. A sensação que se tem é a de estar preso dentro do filme “Purge – Uma Noite de Crime”,  uma realidade cada vez mais possível. Junto, dias antes, a Globoplay inseriu em sua programação as três temporadas da série “Rotas do Ódio”, de Susanna Lira (que apresentou há alguns anos o documentário “Intolerância.doc” – e não, não é a refilmagem do clássico de D.W. Griffith em 1916). E mais junto ainda, nós referenciamos explicitamente “A Outra História Americana”, de Tony Kaye com Edward Norton, que chocava seu público, unida de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, baseado no livro de Anthony Burgess. Com tudo isso listado, será que o ser humano muda? Será que Dime poderia sobreviver? Ou a natureza de já nascer sendo o que já é não “troca de chave”?

“Skin – À Flor da Pele” nos mostra, infelizmente, que o timing não poderia ser mais conectivo. Aqui, o longa-metragem, dirigido por Guy Nattiv (de “Strangers”), reverbera 2011 (ano em que o filme se desenvolve). Baseado em uma história real de Bryon Widner, sua narrativa conduz o espectador pelo caminho da salvação. Da redenção. Do humanismo. De que todo ser pode ser “curado” e estar apto a viver em sociedade. A câmera, imersiva de experiência-aversão à aversão-fobia, mas blindada pela ficção, objetiva nosso incômodo à aceitação alienada e militar do personagem principal, para depois orquestrar uma implosão transmutada de valores. Tudo ao redor é apresentado como justificativa. Os atos, reações e até mesmo a violência, ora para provar o poder, ora por estar acuado, ora por loucura compartilhada de psicopatas (que conseguem expressar seus “demônios” com o consentimento das “ordens” governamentais, o Trump, por exemplo). Cada um ali não tem a menos ideia da imensa dimensão do que seus atos irão causar. São inconsequentes. Frágeis. Que buscam “abrigo” na margem para vitimizar suas ações.

Baseado no curta-metragem “Skin” (que venceu o Oscar 2019 na categoria de Melhor Curta Live Action), seu diretor aprofunda a trama de Bryon, que, coberto de tatuagens racistas, “acorda” com lampejos de lucidez (à moda fabular realista de José Saramago) e decide sair do “lado negro da força”. “Skin – À Flor da Pele” é uma jornada. Um trajetória de desconstrução. De regurgitar, abandonar e se abrir ao novo. Ao diferente, com a ajuda de um ativista de direitos negros. É um filme sóbrio, maduro e que mitiga estereótipos, clichês, gatilhos comuns e dramaticidade sensibilizada. Nós somos mergulhados na vida nua e crua de “novas vozes poderosas”. A cena em que um “manifestante” peita com atitude agressiva um segurança do Governo dos Estados Unidos na depredação do Capitólio americano pode servir de gancho e exemplificar o tão livre (“terra sem lei”) está o mundo. O longa-metragem em questão aqui intensifica a imprudência de permitir que pessoas erradas tenham o poder, assim como já nos mostrou em inúmeras cenas o seriado “Rotas do Ódio”, de que a inconsequência passional do “amar demais o ódio” gera comprovadamente desequilíbrios de confusão de realidades. Como acordar então? Como impedir que essas “sinapses em curto” consigam se regenerar? “Skin – À Flor da Pele” não mostra qual foi o exato gatilho de mudança, mas o universo e o “verão” foram salvos por um homem preto que não desistiu de uma ovelha desgarrada branca.

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