Sergio

Intenso e Intimista

Por Daniel Guimarães

Netflix

Não é das mais fáceis tarefas definir a nova obra original da Netflix. Talvez o que salte aos olhos de primeira seria a definição de uma cinebiografia da vida de Sérgio Vieira de Mello, que leva o nome do longa-metragem. Porém, é também um drama político com a temática de diferentes guerras e conflitos. Da mesma forma, há um romance intimista e pessoal. Na maioria dos casos, Sergio utiliza bem do revezamento temático. Esta, porém, é uma difícil missão e o filme varia em altos e baixos ao longo de suas duas horas de duração.

O longa, dirigido por Greg Barker, conta a história do diplomata brasileiro que possui um papel fundamental na história da ONU pelas suas missões em nome dos direitos humanos. Os carismáticos Wagner Moura (Sergio) e Ana de Armas (Carolina) encarnam a dupla de atores protagonistas. O par exibe uma química e uma atratividade necessária para o casal. Em um filme que hiper dramatiza seus temas políticos constantemente, a inserção de um romance soa como um recurso forçado para maior identificação de personagem. Ou mesmo algo para movimentar o filme em tramas que não possuem bagagem e conteúdo o suficiente. Não é o caso de Sergio, visto que seus realizadores claramente se importam com este núcleo da narrativa.

Na alternância de temas em torno da figura de Sérgio, a montagem possui um papel fundamental e os cortes transitam entre tempo e espaço a todo momento. O filme, em sua edição, sempre está a criar ligações entre os planos que conectam tempos diferentes no momento do corte. Com isso, passam-se bons momentos de transições fluidas e lógicas que criam sentidos, analogias e comparações através da própria montagem, sem o filme pausar sua narrativa para isso. Em outras diversas sequências, porém, simplesmente parecem forçadas na obrigatoriedade dessa estética, sem nada a dizer, apelando para um falso poético,  de dramatização desnecessária e causalidades arbitrárias.

Dentro do gênero das cinebiografias, Sergio é consideravelmente mais ambicioso e interessante. Fugindo da característica da ficção que age como documentário, mas nunca se assume enquanto tal, presente em muitos desses filmes, aqui há um espaço maior na encenação, conduzindo a identificação com os personagens pelo seu desenvolvimento mais íntimo. A intensidade do protagonista é retratada não só pela boa atuação de Wagner Moura que, em primeiro momento parece acima do ponto e carregada de exageros, mas se mostra uma forma que acompanha esteticamente a intensidade que a própria câmera carrega no personagem. Sergio é um homem de muitas características fortes. É ideologicamente firme no que faz, ama intensamente, possui angústias profundas, mas seu sorriso é sempre largo.

É fundamental o papel do ator nesse processo que é poucas vezes expositivo no roteiro. Porém, se na construção de personagem não se encontra o artifício da exposição demasiada, na trama política ocorre em excesso. O primeiro ato é o mais incômodo nesse sentido. Conversas de diplomatas dos mais importantes do mundo discutem o mais básico dos conflitos como forma de informar ao público o que está se passando naquele momento. O que nos leva ao drama político de fato. Os norte-americanos de fato parecem com vilões de quadrinhos na realidade, entretanto, colocá-los sem qualquer traço de complexidade, com o líder estadunidense repetindo clichês e frases prontas é um desperdício de uma narrativa que possibilita tantas opções. Mesmo a guerra no Iraque sendo uma atrocidade, é papel de um filme nos dar motivos para nos indignar ou revoltar além do banal.

Se Bacurau, filme recente de Kléber Mendonça Filho, utiliza da sátira e do absurdo para zombar do imperialismo americano enquanto estética de gênero, aqui a proposta é claramente diferente, com idealização de discussões sobre crises políticas e debates dos conflitos. Nesse ponto, o longa fica aquém do que poderia ser no próprio trabalho de Sérgio na ONU, tão importante quanto sua vida pessoal. Os feitos do personagem aparecem e o engrandecem e, de certa forma são bem realizados a nível pessoal, mas a nível de desenvolvimento político, não. A independência de Timor-Leste da Indonésia, por exemplo, é extremamente interessante. Porém a cena de resolução do conflito é banal e decepcionante.

Sergio é uma surpresa interessante de um filme que soava como mais um dos muitos que se aproveitam de histórias verídicas e interessantes para realizar produções pobres de ideia. Aqui, a narrativa cinematográfica e criação imagética pôde se soltar de algumas amarras do gênero. A direção geral, com altos e baixos, carregou uma estética particular, que soube trabalhar em diversos estilos a figura de Sergio Vieira de Mello.

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