Sefarad

Sinagoga portuguesa

Por Felipe Novoa

É difícil fazer um comentário sobre um filme que exalta o judaísmo e mostra de forma favorável uma mudança para a Palestina em tempos de abusos de direitos humanos diários contra a população Palestina por conta do exército judeu, então eu vou tentar fingir que não escrevi as últimas linhas e você finge que a que está tudo bem na região ali perto da Judéia que eu vou terminar a crítica tentando ser o menos político possível.

“Sefarad” cobre a história real sobre esse personagem histórico português que foi o Capitão Barro Basto que foi o idealizador e responsável pela criação da Sinagoga da cidade de Porto para receber os marranos também conhecidos como cripto-judeus. Ele sofre oposição de diversos lados por sua fé que parece beirar a megalomania mas ele só está exasperado, a atuação do Rodrigo Santos foi bem medida nesse ponto, o que não se pode dizer o mesmo do resto do elenco mas não sei se é por conta do roteiro mal desenvolvido em termos de diálogo ou do figurino mal cortado que possivelmente os deixou desconfortáveis durante as gravações e com aparência amarrotada.

A questão humanitária é um ponto muito interessante dessa narrativa. “Sefarad” começa com a coroa Portuguesa expulsando o povo judeu de Portugal e o plot roda em volta dessa renascença e retorno pós diáspora. É importante notar que os sobreviventes entraram na ilegalidade e aderiram ao catolicismo para se camuflarem, o que depois de quatro séculos leva a luta reformista do Capitão: reintegrar esses judeus com seus hábitos arcaicos a comunidade internacional judia da década de 1920. Spoiler: ele tenta e consegue mais ou menos, sofre uma sabotagem, perde o cargo no exército e se sente vazio por não alcançar plenamente seu objetivo original de ajudar os … Aí começa a segunda guerra e Portugal começa a receber um fluxo colossal de refugiados judeus que procuram e acham ajuda na Sinagoga. O prédio que foi criado primariamente para adorar a Deus e unir a comunidade no norte de Portugal se torna um local para receber e ajudar os que perderam tudo na guerra, uma ajuda mais humana, terrena e imediata.

Quanto ao roteiro de  “Sefarad” é muito difícil engolir a exposição desnecessária e invasiva que o texto apresenta. Personagens se referem uns aos outros por nomes completos no meio de diálogos corriqueiros, coisas óbvias são explicadas para quem deveria ter um entendimento completo de certos assuntos e eu me senti tratado como um pateta. Se o filme retrata uma comunidade fechada judia que fala entre si com vários termos em hebreu eu não espero que os personagens usem a tradução desses mesmos termos logo em seguida. O que tem o intuito de parecer inclusivo se torna despropositado. “Desobediência“(Sebastián Lelio) conseguiu fazer muito melhor sem explicar cada idiossincrasia deste povo.

Eu menti. Voltando ao que eu fingi que não falei: estamos em tempos de empoderamento das minorias, e o diretor tenta fazer isso de um modo que é quase segregatório. Falar da resiliência do povo judeu tudo bem, falar da sua superioridade como raça por conta disso não, sem contar do faniquito que um dos membros da comunidade judaica de Londres que foi absurdo; não cabe a ninguém dizer quem pode ou não ser judeu (ou membro qualquer outra religião) baseado na legitimidade de laços sanguíneos maternos através de 400 anos, isso é racismo velado. Eles querem o tratamento humano e igualitário para o seu povo assim como os cristãos recebem mas escorraçam outros dos seus apenas por não terem uma árvore genealógica certificada.

A montagem também mostra o mesmo cuidado e atenção que o roteiro, figurino e direção receberam. A abertura do filme, a cidade medieval de Porto mal renderizada, é uma das piores cenas de CGI dos últimos anos, falo isso num mundo onde os pseudo documentários do History Channel existem e animações com orçamento negativo da Vídeo Brinquedo também. Vários diálogos e planos são mal planejados e mal executados. Tem hora em que o personagem entra em cena apenas para sentar na mesa e aí então a cena corta, não havia nenhum motivo pro personagem aparecer além de talvez estender o filme em mais 20 segundos ou obrigar o espectador a olhar aquela barba falsa mal colada num close desconfortável.

Acredito que “Sefarad” cobre uma história importante e relevante para a comunidade judaica portuguesa (mais precisamente do norte de Portugal) mas poderia ser um documentário e não um longa dramático. Um documentário pode ser feito com uma fração do orçamento e o resto do dinheiro poderia ter sido doado aos muitos refugiados das guerras no oriente médio que chegam diariamente a Europa, mas vivemos num mundo concreto e brutalmente desconcertante então essas possibilidades utópicas não ocorreram.

 

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *