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Rumo

Esperança de encontrá-lo

Por Ciro Araujo

Durante o Festival de Brasília 2022

Rumo

Falso documentário, documentário ficcional, ou uma ficção documentada? O jogo de palavras aqui serve para montar exatamente o que “Rumo”, longa-metragem de Bruno Victor e Marcus Azevedo, é. A memória, um objeto tão pesquisados, é altamente manipulada, contida e esquecida – ainda mais em um ambiente como o brasileiro. Assim, a obra realizada por egressos da Universidade de Brasília remonta a própria instituição, em um momento em que é possível demonstrar quais aspectos transformaram vidas negras dentro da implementação política.

Para além de uma tendência e facilidade de linguagem, a obra parte de uma ideia entre alternar-se de um curto drama sobre ser negro, LGTB, estar estudando em um sistema superior público e, por fim, ter sua mãe como também alguém que está passando por parte dessa transformação, em outra etapa de vida; E para um documentário expositivo, que trabalha estatisticamente educando os espectadores, sobre como chegamos até um momento em que cotas universais são tão implementadas. O trabalho de cinema de memória atinge um pico aqui, cujas entrevistas antigas com a população são retomadas, como um diálogo bem sincero: como era a sociedade e como se sentiam à vontade para cuspir achismos enraizados em puro racismo.

O filme dirigido pela dupla Bruno e Marcus é também um produto de guerrilha. Foi inicialmente rodado com um financiamento coletivo após a descoberta da história de Leni Rabbi, uma matriarca, negra, que procurava finalmente entrar na universidade pública graças às cotas. O orçamento mínimo, de sete mil e quinhentos reais, demonstrou paixão existente dentro da equipe para se realizar o movimento de dramaturgia de uma linha narrativa negra. Talvez exista um interessante muito grande dos diretores em andar também por esse lado esclarecedor do documentário expositivo, perdendo uma grande chance de se aproximar da atuação da própria Leni, que parece à vontade para as telas. Os pensamentos estruturados de demonstrar existir um preconceito e heteronormatividade na pesquisa científica são válidos, mas parecem flutuar no que antes havia possibilidades.

Para completar o pensamento do parágrafo anterior, há de se contemplar a seguinte ideia: a sessão na qual “Rumo” foi exibida, estava lotada com um público negro e outros apoiadores. Através dela, os gritos de revolta produzidos estavam em momentos nas quais se expunha o velado da sociedade brasileira, tais como o racismo estrutural. Por consequência, toda a história de vida de Rabbi, que se costura na dramaticidade, às vezes é esquecida – num filme de memória. De fato, há o lado nefasto que destrói toda uma questão até de recordações, como a sociedade brasileira reagindo as notícias de cotas no recente passado. Mas essa ironia, parece tão focada, que justamente em um momento tão regurgitante, possuir capacidade para esse alento visual entre situação mãe e filho, se esvai.

A obra na verdade representa absolutamente uma ideia, não só de defesa das cotas sociais, como de afronta ao sistema dentro da universidade. A UnB (Universidade de Brasília), é um local ainda elitista, justamente pelo seu modelo de adesão. A própria Faculdade de Comunicação, de onde nomes canônicos do cinema brasileiro lecionaram, é frequentada até o presente por uma maioria de classe média com estabilidades financeiras. A consequência, para o Audiovisual do país é direta. Então, o documentário se redescobre como um bastião minoritário. Até o ato de colocar um sofá e ir assistir TV dentro do ambiente do Instituo Central de Ciências, o conhecido Minhocão, é político. Senta-se e, passivamente (acaba que ativamente também), começa um entendimento do que são cotas, para que e quem elas servem.

É triste apenas que a dramaticidade parece se perder; sem embargo, não se deixa perder sua emotividade. É um longa-metragem curto, que possui escalada para olhar de forma feliz para o futuro. Por diversos momentos foi relembrado pelos cineastas responsáveis que era uma honra exibi-lo após as eleições e derrota de Bolsonaro. Faz sentido, já que existe dentro de “Rumo” uma felicidade que brota, semeado como lindos feijãozinhos. Eles crescem para alcançar potencialidade em seu fim, em um momento em que se lembra da vitória de Leni Rabbi contra um sistema que antigamente era contra a própria. A UnB foi a segunda faculdade a implementar as cotas, após um teste da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em Brasília, hoje, as cotas oferecem cada vez mais um espaço de possibilidades e de futuro. O brasileiro gosta da palavra esperança. Esse talvez seja um momento para utilizá-la.

3 Nota do Crítico 5 1

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