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Ruído Branco

Simulacros e Simulação

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2022

Ruído Branco

Em 1981 o filósofo, ou melhor, o semiólogo Jean Baudrillard escreveu um livro premonitório com esse título, Simulacros e Simulação. A ideia era que a sociedade, no crepúsculo do século 20, substituiu toda a realidade e significados por símbolos e signos, tornando a experiência humana uma simulação da realidade. Os simulacros simplesmente ocultam que algo como a realidade é irrelevante para a atual compreensão de nossas vidas. Em 1985, o escritor pós-moderno Don DeLillo publicou “Ruído Branco”, dramatização da vida ordinária de uma família do Midwest cercada de uma profusão de signos, estáveis e instáveis, amor e morte, simulacros e simulações: o livro ganhou um dos prêmios literários mais prestigiados nos EUA, National Book Award. Em 2022, o diretor Noah Baumbach realizou “Ruído Branco”, fiel adaptação do texto literário. Na década de 1980, a internet deu origem ao ciberespaço, mundo virtual de computadores projetado para facilitar a comunicação online: em 1991, a Web tornou-se publicamente disponível – e o mundo nunca mais seria o mesmo. O livro de DeLillo, organizado em uma narrativa artificial e simulada, é escrito na primeira pessoa através dos olhos do personagem principal, Jack Gladney (Adam Driver): diálogos e interações entre personagens carregam a história, sobretudo entre Jack e a mulher, Babette – encarnada por Greta Gerwig, também diretora e mulher na vida real de Baumbach. Sobre o texto do livro, reproduzido nas falas do filme, os estudiosos avaliam que a dicção não é complexa, mas a estrutura da frase do diálogo de Jack é complexa. Talvez seja essa uma das razões das oscilações altas e baixas na fruição do espectador (e do leitor): a perspectiva em primeira pessoa dá ao público a capacidade de ver os verdadeiros pensamentos e sentimentos de Jack, mas estamos em um ambiente onde as simulações da realidade parecem mais reais do que a própria realidade. Nos termos de Baudrillard, estamos na hiper-realidade, ou seja: a simulação não é mais a de um território, um ser referencial ou uma substância; é a geração por modelos de um real sem origem ou realidade: é um hiper-real.

Tudo isso pode parecer um tanto abstrato, mas o fato é que o livro de Don DeLillo, atualizado pelo filme de Noah Baumbach, está cheio de profecias que de alguma forma se realizaram. Além do mundo de simulações que é o ciberespaço do nosso dia-a-dia – e que mal começamos e mergulhar – outras mais pessimistas também afloram em “Ruído Branco”. Quando um motorista de caminhão procura a garrafa de Jack Daniels e perde a direção – exemplo de merchandising pós-moderno – a batida que se segue entre sua carga de produtos químicos tóxicos e um caudaloso trem produz uma enorme nuvem preta que avança inexoravelmente em direção à cidade, afetando Jack e sua (fraturada) família. O temor apocalíptico que invade a cena remete, por uma via metafórica, à Covid e à pandemia que abalou a humanidade no passado recente. A reconfiguração da família – e, por extensão, do sonho americano – é turbinada por uma nova e insidiosa droga, representada no filme (e no livro) pela pílula mágica que vicia Babette: como sabemos, a indústria farmacêutica fornece soluções, cada vez mais pervasivas e intrusivas, para as pessoas se afastarem do desespero diante dos limites viscerais da vida, amor e morte. E Jack, professor aloprado especialista em Hitler que pilota uma caminhonete Chevy, é o criador de uma nova vertente do conhecimento, a hitlerologia – sátira ao mundo acadêmico, mas também uma curiosa antecipação da emergência da uma extrema direita radical, nos EUA e diversos países, inclusive no Brasil.

O livro no qual “Ruído Branco” foi baseado revelou a seus leitores, à época do lançamento, uma demolidora crítica à sociedade de consumo americana, eivada de um olhar pós-moderno. DeLillo chegou a essa formulação literária influenciado pela literatura, certamente – Faulkner, Hemingway e Joyce são citados por ele – mas também por uma cinefilia devoradora dos anos 60 – Bergman, Antonioni, Godard. Deste último a influência é evidente no engarrafamento que se segue à nuvem tóxica: “Weekend à francesa”, dirigido por Godard em 1967, se passa num cenário de engarrafamentos inimagináveis, acidentes terríveis, sirenes de ambulâncias. Para escolher o título do livro, o escritor testou várias possibilidades, até que se fixou em “ruído branco”, expressão que sugere uma metáfora acústica. Ruído Branco, sinal sonoro que contém todas as frequências na mesma potência, pode ser o som da televisão ou rádio quando não estão sintonizados, ou até mesmo o barulho constante do ar-condicionado – na presença desse tipo de som, os estímulos auditivos mais intensos têm menos capacidade de ativar o córtex cerebral durante o sono. O sono, enfim, torna-se um sono dogmático.

 

3 Nota do Crítico 5 1

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