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Rosa Rosae: Uma Elegia da Guerra Civil Espanhola

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Por Giulia Dela Pace

Festival Internacional de Guadalajara

Rosa Rosae: Uma Elegia da Guerra Civil Espanhola

“Sí, así, así crecí”

(Carlos Saura)

 

O novo curta de Carlos Saura, de 2021, “Rosa Rosae: Uma Elegia da Guerra Civil Espanhola” é uma coletânea que recupera e remonta uma sequência de memórias da Guerra Civil Espanhola  do ponto de vista de uma criança e seus ambientes, sem faltar com uma complexidade poética carregada de simbologias indispensáveis e sensíveis. Assim, o cineasta espanhol recupera mais de trinta imagens, ilustrações e fotos que imprime ele, manipula, brinca e depois filma acompanhando uma música em formato de elegia com o simples apoio de um violão. Para, assim, criar uma história que reproduz os horrores da guerra sob o ponto de vista de quem, historicamente, tem percepções e capacidade de interpretação constantemente renegados: a criança.

Essa guerra retratada, que durou cerca de três anos, coincide com a primeira infância do cineasta. O que corresponde a fase de maior desenvolvimento de estruturas cerebrais de um ser humano e aquisição de capacidades motoras e de compreensão que serão extremamente necessárias futuramente ao desempenhar tarefas mais complexas em qualquer área da vida. Ou seja, no período mais importante desenvolvimento de uma criança e definição de certos comportamentos, além da fixação de certas memórias, Carlos Saura é uma entre tantas crianças espanholas a presenciar três grupos batalharem e massacrarem o próprio país em uma guerra que acabaria da pior forma possível: com a ascensão do fascismo franquista.

Portanto, “Rosa Rosae: Uma Elegia da Guerra Civil Espanhola” é uma carta aberta que desabafa sobre memórias, questiona sobre os objetivos de uma guerra, e pergunta ao espectador sobre a capacidade cognitiva das crianças – que é inquestionavelmente alta e apta a cogitar de modo profundamente delicado –, por fim, deságua em aquarela certa obliteração parcial de uma memória ensopada de lágrimas. Poético, não apenas num espectro interpretativo ou subjetivo, mas na sua origem conceitual: uma elegia. Tipo de texto literário que tem como temática formal a tristeza por algo interrompido pela morte ou infidelidade – o que simplesmente não foge do tema neste caso – e com uma métrica específica: versos hexâmetros e pentâmetros alternados. E Saura notavelmente a respeita ao longo do curta.

O filme funciona em todos os seus âmbitos. Primeiro o visual: a aquarela e o carvão\grafite por cima de fotos e desenhos, tudo em preto e branco desesperadamente borrado e com traços melancólicos e pesados. O que torna indigesta a absorção dos fatos expostos. Para um filme que funciona como animação, impressiona a oposição aos sentimentos comuns desse gênero quando se trata de assuntos “pesados”, pois animações tendem a romantizar ou “colorir” as maiores tragédias a fim de torná-las “palatáveis”.

Segundo, e por fim, a composição sonora e da elegia, como falado anteriormente, é simplesmente brilhante e faz parecer até mesmo um clipe de música do século VII a.C – perdão aos puristas que não enxergam o clipe como produto cinematográfico – especialmente, pela profundidade – não apenas de campo sonoro – que “Rosa Rosae: Uma Elegia da Guerra Civil Espanhola” faz sentir o espectador sob tanques, tiros, explosões e gritos atormentados. Todo o emaranhado sonoro que enrosca o coração do espectador e o esmaga em um reconfortante vazio do significado em “3,14”, ou entre carteiras e a última lembrança dos mortos da guerra civil que ressoa incansavelmente gutural e pesado mesmo horas após os pequenos seis minutos de filme.

4 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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