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Ficha Técnica

Direção: Jonathan Nossiter
Roteiro: Jonathan Nossiter
Elenco: Charlotte Rampling, Bill Pullman, Irène Jacob, Fisher Stevens
Fotografia: Lubomir Bakchev
Montagem: Sophie Brunet, Jonathan Nossiter
Duração: 125 minutos
País: França / Brasil
Ano: 2010
COTAÇÃO: PÉSSIMO

Preâmbulo

Há alguns meses antes da exibição de “Rio sex comedy”, no cinema Odeon Br, durante o Festival do Rio deste ano, iniciava-se o meu envolvimento com este filme. Participei da gravação de uma cena, como figurante, sem falas, que aconteceu no Teatro Maison de France, no Centro do Rio de Janeiro. Lá, empenhei-me para que pudesse fornecer o meu melhor, já que não sou ator, mas neste caso, era só ficar sentado, parado e bater palmas. Isso até eu conseguiria. Nesta época pude sentir a atmosfera do filme, que era estranho como David Lynch. Paguei para ver o que ia acontecer, não literalmente. Depois de algumas horas e muitas repetições, entre fotos com Charlotte Rampling, seu filho e o diretor, o meu trabalho acabou e apostei em um resultado positivo. A minha curiosidade era tamanha. Então quando tomei conhecimento de que a minha pequena participação estaria sendo compartilhada em um dos maiores festivais de cinema, não contive a emoção e o divulguei com unhas e dentes. Propagandeei-me com todos os artifícios existentes na publicidade, utilizando o boca-a-boca e obrigando os amigos a não perder a sessão. O detalhe é que ao assistir o longa, constatei que a minha cena não apareceu. Logo, eu também não estava na tela. Não sou rancoroso, sempre entendo o propósito. Quando o longa acabou, agradeci ao diretor por não fazer parte de um dos piores filmes que já vi na vida.

A opinião

Com união Brasil e França, o longa inicia-se com a atriz principal, Charlotte Rampling falando e dançando epifanicamente. Com diálogos politicamente incorretos e racistas, mostra coadjuvantes brutos, que conservam, de forma caricata, as peculiaridades do local. O filme se passa no Rio de Janeiro, preferindo a busca do trash. Os personagens conversam sem convencimento, direcionando ações vazias e extremamente ruins. Deseja-se chocar utilizando o sarcasmo e o humor negro, porém o que se consegue é o clichê, a repetição do óbvio. A cada cena, o nível patético e constrangedor aumenta. O amadorismo é latente. A prepotência recorrente. Assim, comporta-se de forma pretensiosa, esperando do espectador uma aceitação cinematográfica não questionada. O resultado é inverso, fornecendo a quem está do outro lado da tela a vontade de não está ali e ou o sentimento de pena e vergonha para com o contexto totalitário. O argumento até que é interessante. Uma médica, cirurgiã plástica, convence pacientes a não realizarem estas operações. Uma cirurgiã plástica inglesa vem ao Rio de Janeiro e percorre clínicas tentando desencorajar as pessoas que buscam na estética a felicidade máxima. Ao mesmo tempo, o novo embaixador dos Estados Unidos chega à cidade e resolve explorar uma favela por conta própria. Vai parar no Vidigal, onde cai nas mãos de um guia turístico não-convencional e uma mulher gostosona, que tenta abrir seus olhos para a realidade. Já a pesquisadora Irène desembarca com seu marido intelectual para fazer um filme antropológico sobre a cidade, mas tem que se dividir entre a família, a casa e o cunhado.

Ela, Charlotte, estimula a aceitação do próprio corpo e da própria essência do ser. O detalhe é como se estrutura a narrativa e como se cuida para que possa conta-la e mante-la. É um quebra-cabeça, com histórias que se interagem em algum ponto. É chato, muito chato. E apresenta-se pessimamente. Confesso que aguardei até o final, primeiro porque precisava ter uma visão completa do filme para escrever, e outra, que esperava ansiosamente pela minha aparição que não aconteceu. Muitos criticaram as percepções de Sylvester Stallone e seu “Os mercenários” pelas visão destrutiva da figura do Brasil. Mas neste, há deturpação excessiva de estilo cultural carioca. Não acredito na censura, por isso permito que a liberdade do pensamento seja exercida a todo custo. Todavia, é uma afronta crítica pelo estrangeirismo. As ações hiperbólicas tentam experimentar com a parte técnica, como cameras subaquáticas. Expõe a violência com personagens animais, quase terroristas. A “palhaçada” não possui fim. Podendo-se observar na cena em que um embaixador foge de seus seguranças, invadindo uma casa e escondendo-se em um armário em uma favela, comportando-se como um herói liberto. Tosco e vergonhoso. “Conheço um cara que foi lá (na favela) e levou dois tiros em dois minutos”, diz-se extremamente preconceituoso e inverossímil. É bobo, com humor pastelão, transformando o espectador, de novo, em imbecil e cumplice do que se diz. Há nudez, personagens perdidos – sem saber o que irão fazer – e sexo explícito. A impressão que se tem é a de que o diretor possui pouco tempo de gravação. Por causa disso, não se importou com a interpretação de seus atores. É um filme sem roteiro. Há Rede Globo em uma televisão.

Há uma excursão de gringos pelos morros cariocas – perceba a participação de Jesus Luz, o modelo da cantora Madona. Com trilha de Paul Astley, tira-se foto com traficante. Utiliza-se casos reais (quase documentais) de procedimentos cirúrgicos como ficcionais. Há Ivo Pitanguy, um dos mais famosos cirurgiões plásticos, como ator. “Ajudamos Deus corrigindo as imperfeições do ser humano”, diz-se. Preste atenção à referencia de um erro do médico. “O Pitanguy que fez um peito maior que o outro”, sobre o resultado dito por um travesti. O misticismo também está presente. Envolve religiões e costumes dos índios. “Até uma mãe de Santo precisa de uma mãe na macumba”, diz-se. A linguagem é outro elemento confuso. Frases ditas em inglês são entendidas e respondidas em português, e são entendidas também. O esculacho a nossa maneira de ser é o que mais incomoda. Mas há crítica social. A empregada que come na cozinha, o tratamento diferenciado dos estrangeiros para com as domésticas, as “socialites” em seus habitats naturais (moradores de Ipanema). Uma sucessão de estereótipos. “Virgem, uma fantasia cristã”, diz-se. Índios na floresta da favela vendo novelas, Museu do índio como retardamento, pajens como cachorros – bichos do Brasil. Há a índia Iracema, a virgem dos lábios de mel, que se encanta com o capitalismo. “Eu não faria plástica porque tenho curiosidade demais de saber como vou envelhecer”, diz-se com uma frase de efeito interessante. “No Brasil pode tudo”, pode-se resumir o que o roteiro deseja transmitir. Há Caros Amigos e Caras, revistas expressadas diferentemente do que realmente são. Portanto, caro e cara espectador(a), fuja enquanto pode e escolha outro filme. Não recomendo. Mas há algo positivo. Se o diretor não tivesse cortado a participação de Karine Teles, o longa “Riscado”, de Gustavo Prizzi não teria acontecido.

O Diretor

Nasceu em 1961, em Washington. Cresceu em vários países da Europa e na Índia. Estudou pintura na Escola de Belas-Artes de Paris e no Instituto de Arte de São Francisco. No cinema começou como assistente de Adrian Lyne em Atração Fatal (1987). O seu primeiro longa foi Resident Alien (1991); o segundo, Sunday (1997), recebeu os prêmios do Júri e de Melhor Roteiro em Sundance. Signs and Wonders (2000) foi exibido em competição em Berlim e o documentário Mondovino (2004), em Cannes.

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