Quanto Vale?

Quanto vale um corpo?

Por João Lanari Bo

Festival de Sundance 2020

O longa-metragem da jovem realizadora Sara Colangelo, “Quanto vale?”, começa com uma aula de Direito compensatório: Ken Feinberg (Michael Keaton), advogado e ex-chefe de gabinete do senador Ted Kennedy – ligado portanto ao Partido Democrata – pergunta aos alunos: em caso de algum acidente, quanto vale um corpo, como dimensionar o custo da indenização? Uma rápida e divertida rodada teatral chega a um valor arbitrário para alguém hipoteticamente esmagado por uma colheitadeira, máquinas agrícolas capazes de realizar a colheita (como o próprio nome diz), a debulha e a limpeza dos grãos. Feinberg, munido daquela confiança que os advogados exibem na maioria dos filmes hollywoodianos, aparece na sequência despedindo-se da mulher e tomando o trem para o trabalho, em Washington. Michael Keaton, ator versátil, compõe seu personagem com maneirismos controlados, tom de voz ligeiramente presunçoso, mas contemporizador: a agitação da cabine perturba sua audição de algum clássico do canto lírico, seu hobby predileto. Na janela, o inviolável prédio do Pentágono – epicentro do poder mundial – surge mutilado por uma explosão em uma lateral. Inacreditável: sem palavras e estupefato, reagiu Feinberg, como de resto boa parte da população do planeta.

O que se segue em “Quanto vale?” é uma narrativa didática, a continuação da aula inicial: desta feita, entretanto, o objeto é real. O ataque coordenado de 9 de setembro de 2001, sem dúvida a mais espetacular operação terrorista da era moderna – marco do novo milênio, o século 21 – obteve uma reverberação midiática global que ultrapassou devaneios escatológicos dos produtores de blockbusters. Quem acordasse no dia seguinte em Pequim, na China, conta o brasileiro Hugo Mader, encontraria DVDs à venda nas ruas com as torres gêmeas do World Trade Center em chamas na capa: a inigualável capacidade deglutidora chinesa copiou e processou imagens da mídia ocidental, CNN à frente, e produziu na madrugada do atentado – aproveitando-se do fuso horário – um documentário/reportagem avassalador. Foram os primeiros a agregar uma aparência de quase-ficção a essas imagens que, passados 20 anos, inscreveram-se definitivamente no (in)consciente coletivo. O filme de Colangelo é mais uma etapa nessa reverberação, localizada no campo judicial: como calcular o valor das indenizações de milhares de vítimas, entre mortos e feridos? Como conciliar o menor prejuízo possível do capital, neste caso as seguradoras, empresas aéreas e o próprio governo, e apaziguar o sofrimento das famílias? Como, enfim, processar um luto abrupto e inexplicável?

“Eu não desejaria esse emprego ao meu pior inimigo”, gargalhou o Presidente Bush ao telefone, ao comunicar a Feinberg que ele seria o encarregado de gerenciar o Fundo criado para agilizar acordos com as famílias e evitar processos contra o setor de aviação civil – as companhias aéreas, caso quebrassem com a enxurrada de ações na Justiça, poderiam falir e afetar toda a economia, além de inviabilizar o transporte aéreo nos EUA. O advogado, que trabalhou como voluntário, assim como sua equipe, teria de fazer a difícil escolha: quanto vale cada vida. Impossível agradar a todos: o “Fundo de Compensação de Vítimas de 11 de setembro”, como ficou conhecido, levou dois anos dialogando com mais de 7 mil famílias e tornou-se uma espécie de escritório de contabilidade da tragédia. O conjunto de famílias é um corte bruto na matriz social americana – e o Fundo, ao prever que a compensação deveria ser vinculada ao salário do falecido(a) e à renda futura perdida, aguçou em última análise a luta de classes subjacente naquele conjunto de vítimas. Este, o principal mérito de “Quanto vale?”: e é também a via da tomada de consciência social do advogado Ken Feinberg. Como equacionar o valor da indenização de uma copeira de lavar louça de origem latina, imigrante ilegal, que alcançaria 200 mil dólares de acordo com a fórmula idealizada por Feinberg, com o valor para um executivo financeiro, que poderia, pela mesma fórmula, chegar a 14 milhões? As situações particulares, inevitavelmente carregadas de dramaticidade, desmontaram a arrogância inicial de Feinberg: e um personagem, igualmente real, Charles Wolf, marido de uma das vítimas – vivido na tela com competência por Stanley Tucci – aparece como o principal agente dessa catarse transformadora.

Wolf criou um site para aglutinar os insatisfeitos, com um nome imbatível – Fix the Fund. Sua tenacidade atropelou até os lobistas das empresas aéreas. “Quanto vale?” dá voz a essa solidariedade que eventualmente aflora na terra do tio Sam, a despeito da estupidez dos altos escalões – Bush e asseclas inventaram duas guerras, Afeganistão e Iraque, com centenas de milhares de mortos, para supostamente promover uma retaliação. Solidariedade que se estendeu a estrangeiros, como no caso do médico brasileiro que procurou o filho por 15 dias, após o ataque: “Quero destacar a enorme solidariedade que recebemos…com exceção da embaixada brasileira, fui bem tratado por todos. Na embaixada, disseram que não tinham informações e ligariam assim que conseguissem. Nunca recebi uma ligação”. Até hoje, há 1.106 vítimas que não foram reconhecidas: uma delas pode ser a de um mineiro que entrou de forma ilegal pelo México semanas antes do ataque, e tinha conseguido vaga como engraxate no World Trade Center, onde vários brasileiros em situação semelhante trabalhavam. Nunca mais foi visto.

O médico brasileiro ficou impressionado com o contato que teve com Feinberg, segundo a Folha de São Paulo: “Ele me impressionou pelo raciocínio direto. Para aquele homem, dois mais dois são quatro e não tem conversa. Eu e minha ex-esposa fomos entrevistados por ele, e percebi que ele se emocionava também.” As indenizações somaram US$ 7,4 bilhões, divididos entre 97% das famílias das vítimas. A tragédia foi, enfim, precificada.

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