Quadro Negro

Uma aula de humanidade estrutural

Por Fabricio Duque

Durante a Première Brasil 2020

Ano de 2021. Século vinte e um. Novo milênio. Um presente que deveria ser mais livre, igualitário, progressista e humanitário, após a assinatura da Lei Áurea, a “permissão” sufrágio aos negros e política afirmativa das cotas raciais (como a Uerj, pioneira na implantação no Brasil). Mas não. Porque o racismo nunca deixa de ser estrutural, fazendo com que o tema sempre volte à “moda”. Com tanta informação, é quase cruel perceber que pessoas “exercem” seus preconceitos baseando-se na futilidade da diferença: outra cor. Outro cabelo. Outra identidade sexual. A luta continua para “provar” que vidas negras importam. Mas a sensação que se tem é a de se bater em uma mesma tecla. Essas e outras questões são abordadas no filme “Quadro Negro”, não o iraniano realizado por Samira Makhmalbaf, sobre professores com quadros negros ambulantes para transmitir seus conhecimentos e manter as crianças vivas, mas sim o documentário dirigido por Bruno F. Duarte e Silvana Bahia, resultante da parceria do Grupo de Pesquisa e Extensão em Audiovisual do Departamento de Comunicação Social/Jornalismo do campus de Vilhena da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR) com o coletivo Festa Literária das Periferias (FLUP). No filme brasileiro, a perspectiva vem das memórias afetivas de oito jovens sobre seus processos educacionais, dificuldades, aventuras e alegrias de entrar em uma universidade pública. “Eu ser o que eu sou não é nada de errado”, diz-se.

“Quadro Negro” é uma aula sobre História e negritude, que se desenvolve em sessenta e três minutos. Sua narrativa conduz-se pela simplicidade, mas em hipótese alguma é simplista. O conteúdo é transpassado pela emoção natural, de lembranças sentimentais, de curiosidades, casos engraçados e situações conflitantes e hostis. A simplicidade aqui é a forma mais direta para aprofundar a complexidade do tema, pelo classicismo de uma roda de conversas que trocam experiências. É um filme de escuta. E ao não militar na causa, ouve-se melhor e se torna ainda mais revolucionário e mais necessário. Inicia-se com fragmentos observacionais do cotidiano, muito bem trabalhado na montagem de Natara Ney. É um documento de tradução antropológica. Pela linguagem pessoal acadêmica. Os relatos, sem complementos sonoros, tampouco tendendo ao sentimentalismo, geram a mais pura emoção. Quando eles, politizados, engajados e articulados,  entre “sentimentos de ambivalência”, embargam as vozes, nós sentimos as lágrimas. De alegria, tristeza e/ou um misto das duas. Como “acessar a faculdade” pela luta resistência de “trinta reais”. Como “gostar da sensação de ser bom em alguma coisa”. “Quadro Negro” é um estudo sobre a essência subjetiva do buscar a educação, alguns com o apoio da família, outros com o desafio extra de completar sozinhos a prova. Esses oito seres, “jogados” na “selva” julgadora, unem seus discursos por serem pessoas pretas (ainda que alguns pareçam mais “jambos” e “chocolates”), não heterossexuais e com “consciência de mundo”, mais um plus nesse jogo de “vida e morte” da “capacidade cognitiva intelectual”, tendo “resiliência enquanto os educadores falharam”. Todos ali precisam “descobrir o papel do negro perante a sociedade”. E provar (“ser 3 ou 4 vezes melhor”), provar  (que “merecem estar ali”) e provar que não “compraram ou plagiaram um trabalho” e que não é um “desabafo”. “Não é discussão, é um posicionamento contra o abismo social”, argumenta-se.

Em um reato, a questão documental da Faculdade de Medicina, uma “uma realidade sombria”, por representar a “elite detentora do saber do Brasil”, mas que “quando se olha para o lado não se vê nenhum preto” pode encontrar exemplificação ficcional no filme “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida”, de Jeferson De. “Quadro Negro” é uma obra de superação. Esses oito são os verdadeiros heróis-modelos (entre o conflito de necessidades: trabalhar e estudar), por “vender salgados” para pagar o curso pré-vestibular; por peitar o sistema a visibilizar as pessoas Trans. É a “pedagogia da existência”. E do “orgulho da mãe bater no peito e dizer que tem um filho negro na universidade” e o choro de felicidade de “passar em primeiro lugar”. “Eu não sabia quantificar como era caro fazer uma faculdade mesmo pública, as outras pessoas percebem essa dimensão do problema”, diz-se. “Quadro Negro” traz o “combo” da “identidade preta e territorial”, “Não de representatividade, mas de proporcionalidade” e da linguagem-metodologia. De “derrubar a hierarquia do pensamento” que consiste em “primeiro pagar os custos, depois vai sonhar”. “Não existe sobre mim sem mim”, diz-se, finalizando a narrativa com dados-mapa histórico e com bastidores de todo o processo. Assim, “Quadro Negro” é um documento essencial obrigatório para ouvir, ressignificar posicionamentos e entender de uma vez por todas que ninguém é melhor que ninguém. De que é cringe se comportar como um ser alienado na padronização enraizada da hipócrita hegemonia social com “Exú nas escolas”.

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