Pulsão

De volta à caixa

Por Fabricio Duque

Em um primeiro momento, o espectador pode pensar que este filme é apenas mais um exemplo crítico sobre a política brasileira, com suas eleições governamentais e um impeachment gerado. Mas não. Não é só isso o que encontramos em “Pulsão”, tampouco apenas uma influência das mídias digitais na construção do cenário político. Com direção de Di Florentino e pesquisa e roteiro de Sabrina Demozzi, o documentário apresenta-se como tufão frenético de informações pelo viés tecnológico-algorítmico, em que a defesa maniqueísta é desenvolvida pela “pulsão” das imagens, que, por sua vez, representam o nosso estágio atual de existir.

Nós somos conduzidos por uma “guerra” cibernético, por uma manipulação de verdades criadas, que ganha forma de crença absolutista ao massificar o falso. O filme também busca levantar a questão de um progresso digital, de que se estar conectado todo o tempo faz com que o receptor sinta uma conexão “antenada”. Contudo, nós também precisamos entender que, por mais que um documentário tente ser fiel às características intrínsecas do processo de criação, nunca há totalidade na imparcialidade e que o subjetivismo do olhar de seu realizador reedita o conceito-resultado. Não há nada de ruim nisso. “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, por exemplo, é totalmente parcial e há méritos indiscutíveis.

Há quem diga também que é na edição que um filme acontece, com suas “escolhas e combinação de fonemas”, dito pela montadora Cristina Amaral, que complementa: “A obra tem que estabelecer uma conversa da melhor forma e da forma mais verdadeira com o público. O diretor precisa atravessar o próprio corpo para chegar ao corpo de todo mundo”. Assim, toda e qualquer pessoa ao assistir um filme deve se perguntar se saiu da zona de conforto e encontrou uma possibilidade de se provocar. “Pulsão” lida sobre as “informações com fins específicos”, por uma narração que lembra, propositalmente, um protocolar programa eleitoral, à moda formal dos curtas “O Brado Retumbante” e “Impávido Colosso”, de Fábio Rogério e Marcelo Ikeda. A voz aqui sem emoção, quase robótica, desfere alfinetadas críticas ao que vemos pelo percepção de julgamento transferido.

Dessa forma, o público é o responsável máximo, até porque vota e/ou se submete às práticas abusivas. Steve Jobs, ao lançar o Mac, especialmente o Iphone, disse que “as pessoas só sabem o querem quando alguém apresenta algo a elas”. Esse algo de “onomatopeia digital” ganha múltiplas vertentes e viés, principalmente no “circo da política”. E muda comportamentos. Minha mãe, por exemplo, que sempre foi uma leitora voraz de livros, no momento, prefere estar horas no celular, lendo e respondendo no Whatsapp acontecimentos de uma vida ordinária. A vida tornou-se uma caixa tecnológica, e, curiosa e paradoxalmente, toda liberdade lutada por anos está agora aprisionada em quereres padronizados, vide “Futuro Junho”, outro filme referencial de Maria Augusta Ramos.

“As manifestações abrem caminho para o que há de melhor e pior no país”, diz a voz. Há um sábio ditado empírico o ser humano se acostuma a tudo e comportamentos são mudados como um click. Como foi dito, apesar da tentativa de abordar os dois lados da moeda (o conflito de falar sobre a veiculação midiática da corrupção no governo da Dilma  e do PT e/ou da Dilma sendo xingada na Cerimônia da Copa do Mundo), a visão esquerdista é o fio condutor, como por exemplo, o discurso da Dilma na ONU e 2013, a economia que melhorou por todos conseguirem consumir como classe média, Lula que abre seu escritório para falar sobre as maravilhas do pressão. Sim, como também foi dito, não há nada de errado e demonizado nesta opção, pelo contrário, o filme nos atravessa pela emoção urgente e passional do realizador. Nós sentimos suas frustrações. “Para onde vai a esperança quando o jogo termina?”, continua a voz.

“Pulsão”, entre meme de internet (“que começa com uma brincadeira e acaba se tornando um comportamento”), movimentos que ganham força e que estimulam uma “população iludida” e “imolada passivamente”. Nós somos adentrados em um frenesi cibernético, que adequam sinapses. Quem não lembra do artifício de mensagem subliminar da propaganda “Compre Batom!”? O documentário objetiva ser um mergulho no uso crescente das redes sociais para ativismo político, passando pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff e culminando na eleição de Jair Bolsonaro.


“Em produção desde 2016, “Pulsão” passou por diversas transformações. A ideia inicial era que o filme fosse um simples registro do Circo da Democracia, evento que reuniu em Curitiba diversas figuras políticas e acadêmicas para debater a conjuntura política da época. De lá para cá, muita coisa mudou, e o Pulsão também: como o material é muito importante historicamente, a gente queria transformá-lo em um longa-documental. Em conversas com os envolvidos na concepção da obra e uma vontade de tratar de temas que estavam aflorando na época, como é o caso dos efeitos da desinformação nas redes sociais e do uso dos algoritmos para disseminar o ódio, surgiu o Pulsão”, finaliza o diretor de Di Florentino.

Realizado sob o selo da Trópico, produtora audiovisual fundada por Florentino, Pulsão não foi o primeiro trabalho do diretor a examinar a esfera política brasileira. A Trópico produziu uma websérie documental chamada #manifesto – política de pessoa para pessoa, que acompanhou as manifestações contra e a favor da saída de Dilma Rousseff da presidência da República. Outros projetos realizados foram o #nosmanteremosfirmes, curta-metragem sobre a Primavera Secundarista com a participação da atriz Letícia Sabatella, e o documentário Acima da Lei, premiado no Olhar de Cinema e que tratou do primeiro encontro entre o ex-presidente Lula com o então juiz da Lava-Jato, Sérgio Moro.


Por conta da pandemia de Covid-19, Pulsão terá seu lançamento online no dia 4 de setembro, às 19h. O filme ficará disponível gratuitamente por tempo indeterminado no YouTube.

Trailer

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