Presença
Corpo, desejos e espaços: uma relação difusa
Por Paula Hong
Festival de Cinema de Vitória 2024
A literatura estética da paisagem inaugurada pelo relato epistolar do poeta italiano Francesco Petrarca, ainda no século XIV, demarca o olhar moderno que abala uma tradição do olhar medieval para a natureza dentro da ordem divina, colocando a experiência do corpo no centro, de modo que há a separação entre os dois: a experiência do prazer pelo olhar que mede a profundidade e as distâncias de um panorama intransponível entre o que se vê e o corpo que o observa. Tal angústia tem sua contribuição revertida agora no século XXI com “Presença”, filme que explora, no registro de performances de três artistas afro-brasileiros, Marcus Vinicius, Castiel Vitorino Brasileiro e Rubiane Maia, o reencontro e o resgate entre corpo e natureza.
Nessa cosmologia inerentemente afro-brasileira, a indissociação e a conectabilidade dos corpos com a natureza é transmutada para as performances que elevam os limites da sua forma (ao performar numa altitude com pouco oxigênio, ao derramar cera no rosto, ao movimentar o corpo na terra ao som de batuques, ao associar as curvaturas dos caules das plantas com o corpo que dança, ao inserir e adaptar a mutabilidade da carnalidade nos espaços) para enfraquecer a lógica vigente do mundo que os separa. Embora algumas dessas performances perpassam pela ironia de serem feitas em locais envoltos por concretos, onde a legitimidade da arte é encapsulada nas suas dimensões cinzentas, por vezes é o que possibilita iniciar um diálogo que lança luz para aquilo que justamente reforça as barreiras entre corpo e a natureza — fonte infinita de inspirações artísticas ao redor do mundo.
A grandiosidade de “Presença” reside na confluência das criações desses artistas que enxergam a organicidade e a costura que precisa ser restabelecida na nossa relação com a natureza, com os mares, com os animais, com a nossa ancestralidade, com os laços — sejam eles de sangue ou não — que são nutridos ao longo de nossas vidas. Seja pela escrita de textos ou poemas que expressam a auto-consciência de seus lugares no mundo, seja pelas fotografias cuja composição visual estabelecem associações, sejam pela combinação dos dois, os artistas aproximam e trazem para o centro os desejos que transbordam as limitações do corpo. É clara a percepção compartilhada do entendimento de que tudo está conectado. Essa dimensão da totalidade que nos conecta com o mundo é o que permite transparecer o fluir das coisas, da organicidade da vida, da possibilidade de sua efemeridade ao mesmo tempo que é possível enxergar a sua extensão através da arte, cujas produções expressam visões outras de modos, também outros, de se colocar no mundo.
Para tanto, o formato do documentário é simples com a intenção de abarcar as complexidades dessas visões, talvez como um gesto didático da montagem para facilitar a fluidez do que é apresentado no decorrer do filme. Alterna entre as performances e entrevistas, uma complementando a outra, nos dando a oportunidade de ouvir dos próprios artistas os processos criativos e práticos que os levaram à forma final de suas obras — tendo em mente, ainda, que as obras não terminam ali, pois estão sempre em remodelamento.
No entendimento de que a presença do mundo está em seus corpos e o contrário é verdadeiro, as limitações do corpo tornam-se mais sublinhados pelos ímpetos de explorá-las, de modo que o objetivo seja fazer com que separação entre um e outro torne-se difusa, cada vez mais impossibilitada de ser demarcada pelo o início, o meio e o fim das coisas. Não há espaço para binarismos e polarizações em suas artes. A presença abarca o atravessamento desses desejos de encontro e conexão da materialidade do mundo, da natureza, dos mares, dos rios, dos animais que coabitam a Terra.
Assim, “Presença”, séculos mais tarde, condensa em pouco mais de uma hora, pessoas e suas produções artísticas que questionam e tentam reverter a separação entre homem e paisagem, expandindo os sentidos do corpo que antes era reservado somente para o olhar. Enquanto assistimos suas performances, o convite para participar no avanço desses questionamentos transformados em arte, em ações que fundem-se na realização dos desejos de remontar relações estratificadas. O filme permite ecoar, como no caso de Marcus Vinícius, que faleceu tão cedo aos 27 anos, inspirações para repensar como enxergamos e nos inserimos no resgate de potencializar a nossa enfraquecida relação com os arredores, nos tirando do pedestal.