Predadores Assassinos
Jacaré no seco anda?
Por Pedro Guedes
É de se esperar que um filme chamado “Predadores Assassinos” praticamente implore para que o espectador tente encará-lo com um pouco menos de seriedade, observando apenas as sequências de destruição e alegando se tratar de um mero entretenimento (como se um entretenimento tivesse menos valor artístico do que qualquer outra obra, mas… enfim). Dito isso, é difícil entender por que o diretor Alexandre Aja fez questão de dirigir este filme com o máximo de sobriedade, levando-se excessivamente a sério em vez de entregar-se ao escapismo puro e inconsequente. Assim, o que poderia funcionar como um divertimento passável acaba se tornando um exercício de melodrama particularmente tolo e inconsistente.
Estabelecendo-se como uma mistura de “Tubarão” com “No Olho do Furacão“, só que com jacarés no lugar do tubarão-título, “Predadores Assassinos” acompanha a jovem Hailey, que, ao perceber que furacões e tsunamis estão chegando para devastar a Flórida, decide ir resgatar seu pai antes de morra afogado dentro de sua casa – esta, por sua vez, está inundada graças ao tsunami. O que Hailey não esperava, no entanto, era que a enchente não fosse o maior perigo representado pelos desastres naturais ocorridos ali; em vez disso, a grande preocupação da protagonista (e de seu pai) passa a ser um bando que jacarés gigantes que chegam através do tsunami e que se mantêm prestes a atacar suas presas. Desta maneira, Hailey e seu pai começam a entrar em desespero, buscando estratégias para sobreviver à inundação e ao ataque de predadores com sangue na boca.
Em primeiro lugar, é difícil acusar a premissa de “não fazer sentido” (afinal, é um “Sharknado” com jacarés, caramba!). Não, ela não faz o menor sentido, mas… a intenção do projeto é criar sequências que mostrem jacarés atacando seres humanos – o que, repito, poderia perfeitamente funcionar caso a direção de Alexandre Aja não insistisse em levar a sério uma premissa tão estúpida quanto esta. Assim, alguns problemas que talvez pudessem ser relevados acabam se tornando ainda mais gritantes: usando e abusando de clichês, desde a dinâmica entre Hailey e seu pai até liçõezinhas de moral batidas como a do “Confie em você mesmo(a)“, o roteiro dos irmãos Michael e Shawn Rasmussen mergulha (com o perdão do trocadilho) em diversos diálogos pavorosamente expositivos e/ou artificiais, como aquele que ocorre entre um pequeno grupo de saqueadores que se vangloria de como são espertinhos por aproveitarem a situação na qual se encontram para roubar lojas de conveniência.
Mas o maior pecado de “Predadores Assassinos”, no entanto, está no fato de o filme falhar naquilo que deveria fazer melhor: provocar tensão no espectador. Transformando alguns dos momentos mais importantes da narrativa em verdadeiros aborrecimentos, Alexandre Aja tenta criar suspense a partir de métodos terrivelmente óbvios, como sustinhos que irrompem a tela através de rugidos abruptos, imagens graficamente violentas e/ou musiquinhas graves que falham em causar inquietação no espectador. Na verdade, o máximo que Aja consegue causar é meia dúzia de bocejos, passando longe dos temores que pretendia despertar – de minha parte, confesso que fiquei apenas de saco cheio em diversos momentos, mas raramente me importei com o destino daqueles personagens. Além disso, é mais fácil aceitar um jacaré gigante surgindo em meio a um tsunami do que, por exemplo, dois heróis que se mantêm intactos depois que o barco no qual eles se encontram é arremessado para dentro de uma casa (isto porque nem comentei a condescendência dos jacarés, que mostram-se totalmente impiedosos ao atacarem todos os figurantes, mas pegam convenientemente leve sempre que avançam em direção a Hailey e ao seu pai).
Encerrando-se de maneira particularmente terrível (o último plano parece interromper bruscamente a narrativa em vez de concluí-la devidamente, saltando de imediato para os créditos finais e introduzindo uma música agitada demais para combinar com a tensão que vimos anteriormente), “Predadores Assassinos” não chega a ser um filme ruim, apenas… genérico e esquecível demais. Se Alexandre Aja se levasse um pouquinho menos a sério, talvez o resultado fosse bem melhor – do jeito que trabalhou aqui, no entanto, acaba transformando o que poderia ser um bom suspense em um aborrecido exercício de autoindulgência. Aliás, para um filme que tenta sempre manter o espectador sob tensão, “Predadores Assassinos” revela-se uma ótima historinha de ninar.