Positivas

O amor não imuniza

Por Roberta Mathias

“Positivas”, de 2009, é o primeiro longa documental de Susanna Lira não produzido para o formato televisivo.  Ao acompanhar a vida de mulheres que foram infectadas pelo vírus HIV por seus parceiros fixos, a diretora explora mais uma face do machismo que se apresenta através da dificuldade do uso de preservativo em uma geração mais velha de mulheres que foram criadas para não discutir , nem contrariar os desejos de seus maridos.

Por incrível que pareça, visto em 2020 o documentário se mostra bastante atual quando acompanhamos no país o crescimento de adolescentes e jovens adultos que contraem diversas doenças infectocontagiosas pela não utilização do preservativo, principalmente sífilis.  Talvez, as gerações que acompanharam o vírus em uma época na qual não havia  o coquetel, tenham entendido o sinal de alerta piscando com , inclusive, a morte de diversos artistas famosos. A nova geração parece ver a utilização do preservativo como uma amarra ou punição.  Em alguns casos, podemos ainda ver como o machismo atua perversamente sob o corpo de mulheres que se sentem ou seguras demais ou ameaçadas com a rejeição do parceiro ao preservativo.

Nesse documentário inicial, “Positivas”, Lira já mostra um pouco do caminho que irá trilhar na carreira de documentarista tendo sempre mulheres como protagonistas de temas delicados, porém necessários. A diretora se coloca como interlocutora entre espaços e pessoas que ,talvez, não buscassem esses temas – que sempre remetem à urgente mudança de paradigmas e estigmas que são corporificados  na mulher. Curiosamente, uma das entrevistadas se chama Medianeira, que em português tem como um dos significados mediador. É dessa maneira que entendo a narrativa de Susanna- em um diálogo entre as entrevistadas e o espectador, como mediadora. A diretora não direciona o discurso das mulheres, respeitando suas individualidades e diversidades.

Os estigmas atuam como tatuagens que não descolam de nosso corpo, mas também ,muitas vezes, como definidores do que somos. É contra essa última atuação que o documentário se posiciona.  A partir dos olhares, das imagens de arquivo e das casas dessas mulheres, Lira humaniza cada uma delas, expondo o que deveria ser tido como óbvio, mas que nem sempre é compreendido por parte da sociedade. Essa mulheres são ,sim portadoras do HIV, mas são mais que isso.

“Positivas”, no entanto, não romantiza a vida das protagonistas. É a partir de um grupo de atuantes da organização ‘Cidadãs Positivas‘ que a diretora percorre o difícil caminho de narrar essas histórias sem que o espectador fique com pena do que vê na tela. Pelo contrário, muitas dizem que passaram a se perceber e a se cuidar a partir do resultado positivo. Nesse sentido, o título do documentário funciona também como a leitura de corpos que retomam a agência para si, seja através da morte do parceiro pelo vírus, pela infecção a partir de relacionamentos tardios ou casos de mulheres que descobrem a doença depois de décadas de casadas.

A perpetuação e a reprodução do machismo dentro de relacionamentos estáveis talvez seja mesmo a grande questão a ser enfrentada. A ideia de que ainda existe um “grupo de risco” , o que passa muito pela marginalização de homossexuais  (somente ontem ,dia 9 de maio de 2020, conseguiram o direito de doar sangue!), é outro desafio. Durante o filme nos são apresentadas mulheres que se colocaram em situação de vulnerabilidade porque, de alguma forma estavam presas afetivamente ao relacionamento. A atuação como militantes passa, então, por um longo processo de aceitação e conscientização de que precisamos cuidar de nossos corpos.

A dificuldade de mostrar o rosto, a voz a a história é trabalhada a partir do momento em que resolvem que precisam ,de alguma maneira, passar das sombras e dos pensamentos mórbidos que ainda são evocados pela doença no imaginário coletivo e trazer novas maneiras de se viver plenamente com uma nova identidade que agora as constitui. Não mais se esconder, mas se mostrar. Nesse sentido, “Positivas” acerta no grau de afeto que cada uma das histórias transmite sem transformar novamente esses corpos em vulneráveis. Elas já saíram desse espaço e não pretendem voltar.

Mais do que trazer essa importante contribuição , a documentarista consegue também permitir que a singularidade seja expressa na tela. Mullheres negras, brancas, pobres, de classe média, uma imigrante nos mostram o lema repetido: “O vírus não tem cara.” ou, mais poeticamente, como uma das entrevistadas define ” O amor não imuniza”.

Trailer

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