Por Onde Anda Makunaíma?

Somos todos Macunaímas

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília 2020

A antropologia nos mostra que o comportamento de um povo influencia-se majoritariamente pelo meio em que se vive. De tanto enraizar esses agis, absorvemos anamneses definitivas de construção do caráter moral e social. Talvez o fascínio por mitos e lendas se dê por causa dessa co-dependência regurgitada de encontrar na fantasia do imaginário popular uma resposta a fim de explicar o que somos. Assim, quando o filme “Por Onde Anda Makunaíma?”, do diretor e montador Rodrigo Séllos, integrante da mostra oficial de longas-metragens do Festival de Brasília 2020, parte em busca do mito Makunaíma, a síntese do povo brasileiro, nós somos confrontados a questionar que Brasil nos foi ofertado e que Brasil nós continuamos a aceitar viver.

“Por Onde Anda Makunaíma?”, gentilmente cedido pelo Canal Curta! para que pudesse ser transmitido no Canal Brasil, quer a essência e a importação das metafóricas ideias antropofágicas, por suas entranhas e desconstruções viscerais. A narrativa do documentário também almeja encontrar o “herói do imaginário popular” nos dias de hoje em todos os brasis possíveis, tudo com oitenta e três minutos de duração.

Sim, um desafio imponente (quase inferindo a “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog), que inclui drones, projeções do filme “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade (diretor que disse que se empenhava para “descobrir o potencial dos filmes”, assim como a Nouvelle Vague, que lutava pela qualidade do cinema), baseado no livro homônimo de Mário de Andrade, de 1926, nas paredes de prédios de uma cidade grande, narrações mais didáticas à moda de um programa educacional de televisão, entrevistas Talking Heads (algo como “cabeças que falam”) mais tradicionais, fotos e rostos expostos à câmera, até mesmo com a presença da música de abertura de “2001 – Uma Odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick e sua exponenciação primitiva, a insinuação repressora da polícia na Aldeia Maracanã, os cartazes indígenas colados nos muros, tudo desemboca na estrutura do cinema direto, que se preocupa mais com o que se fala que com o que se mostra. Mas sim é muita coisa junta. Quem sabe esta não é uma decisão também metafórica para apresentar a bagunça-acumuladora como definição de Brasil, entre aldeias indígenas e o contraste de povos que perderam suas identidades e tiveram seus carácteres adulterados?

O longa-metragem é um filme latino de procura. De reencontrar a ancestral figura lendária que criou a natureza. A obra foi censurada por suas transgressões socialistas, não só por criticar a política governamental, mas talvez especialmente por desmascarar nossas hipocrisias (estas que seguem outros mitos como radicais verdades absolutas). “É um herói e um anti-herói ao mesmo tempo, que sai pelas brechas, um esperto, safado, um artista”, diz-se.

“Por Onde Anda Makunaíma?” entrelaça personagens, um de Roraima, estudado pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, e o outro um retrato, nosso “espelho” cultural. A força da obra causou e causa “comoção lírica”. No filme, o tom alegórico objetiva a suavização da crítica pelo popular. O escracho exagerado das ações e reações permite que a sátira-afiada aconteça mais quando se adentra em análises políticas. Mas não foi tão assim. O final, por exemplo, é tão explícito que até mesmo os militares entenderam seus discurso transgressor (talvez pelo hino e pela casaco de general com sangue afundando no rio). O documentário em questão aqui tenta essa “assimilação antropofágica”, atualizando o tema ao público de hoje, jovens do futuro e enaltecendo idiossincrasias de Mário de Andrade e seu “processo do além do olhar” (o “trajeto do pensamento e o destino de procurar-desvendar”). Entre fotos ilustrativas intercaladas, nos lembrando sempre que este se configura como uma aula-tese.

A narrativa segue tentando modernizar com urgência-orgânica artifícios cênicos mais ingênuos, como uma pureza datada. O ator Paulo José de hoje assiste ao ator Paulo José de Macunaíma, um “herói sem nenhum caráter”, a “Ursa Maior”. A cena dele na natureza com o papagaio gera um comentário “Isto é cinema”. “Por Onde Anda Makunaíma?” também se conduz pela soltura. As cenas estendidas não cortam as histórias contadas. Nós acompanhamos o pensar, o hesitar, os silêncios, a escolha das palavras e o falar de uma senhora de 89 anos, com nome América, simbolismo explícito ao “nome feio” “repatriação indígena”. É um “reflexo da busca paralela da identidade do Brasil e dele mesmo”. “Era o fim de um certo Brasil”, “A obra representa uma necessidade geracional e era só um veículo” ao questionamento da arte, analisa-se entre “hedonismos” e “resistências”. “Acabou a história e morreu a vitória”, definha a atmosfera arqueológica da memória cinéfila-humana-social deste documentário, que aborda mitologia, literatura, cinema, teatro e termina no carnaval.

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