Petite Solange
Entre os dramas geracionais
Por Vitor Velloso
Durante Festival de Locarno 2021
Poucas coisas são mais fortes no meio cinematográfico que o lobby francês que consegue um engavetamento que termina com “Petite Solange”, de Axelle Ropert. Um típico drama europeu sobre as separações familiares que afetam a burguesia. Poucas coisas são tão comuns aos olhos do sul global, acostumado a assistir os desencontros da juventude francesa. Soa como uma reprodução programática da distribuição para o terceiro mundo, uma espécie de concessão que Locarno cria para os termômetros mercadológicos recorrentes.
Por mais que Axelle Ropert se esforce na construção de um singelo drama sobre as dificuldades de amadurecer diante das adversidades familiares, o projeto não se diferencia muito dos demais que ajudam a manutenção da indústria cultural eurocêntrica. Apesar da suposta particularidade dramática, as coisas se desenvolvem na mesmice: a solidão no café, a necessidade de uma identidade durante as drásticas mudanças cotidianas, as cenas na loja de instrumentos musicais (quase sempre olhando do outro lado da vitrine) e o sentimento de “ser subestimada”. O problema de “Petite Solange” é que não existe uma perspectiva distinta, quiçá dispositivos, capazes de provocar alguma ruptura na base consensual da narrativa. É apenas mais uma característica do existencialismo dramático francês, uma perspectiva racional de como essa jovem, curiosa e carismática, se vê colocada a parte de seu eixo mais íntimo. Sem saber o futuro de sua vida, ela se sente deslocada, as pessoas que ama parecem cada vez menos unidas e o amadurecimento soa como um sofrimento agudo.
Ainda assim, cobra por um tratamento digno de sua personalidade, que possui “consciência política” (ao falar de Greta Thunberg) e contribui para os discursos ecológicos sustentáveis. Como um reflexo geracional, não compreende as injustiças e credita às instituições tradicionais uma secção que interrompe o fluxo de sua vida. Agora, neste grave momento, resta conversar com os pais sobre a possibilidade de viajar para Grécia, em um programa de um mês de duração, sobre a preservação ambiental e o cataclisma climático que está por vir. Ao que parece o velho continente é incapaz de entender que os problemas de sua burguesia são a superficialidade da representação para as periferias. É o “Deslembro”, agora integralmente em francês. O longa brasileiro ainda é menos conservador que “Petite Solange” que apenas reproduz o modelo independente.
Novamente, concessões são feitas e algumas distribuições já estão garantidas pelos continentes. É como uma grife a ser exibida, “drama da pequena burguesia tendo que decidir entre Genoa e Grécia”. O lobby do país é tão sólido que garante uma distribuição, na Concorso Cineasti del Presenti e a exibição na Mostra Internazionale, mesmo que não marque forte presença em nenhuma das duas.
Porém, se o espectador estiver procurando algo didaticamente digestível, de fácil assimilação e poucos desafios, será uma via mais sóbria do que Locarno se propôs, ainda que demonstre fraqueza na proposta. Pouco dinâmico e inovando menos ainda ou quase nada, o longa depende diretamente do carisma de Jade Springer para poder funcionar e da empatia do público diante do existencialismo e dúvidas constantes sobre sua identidade. A interpretação central é delicada o suficiente para manter o interesse do público, mesmo que apele para uma suposição romântica e diversos estereótipos que já saturaram. Apesar de dar continuidade ao projeto que busca a homogeneização da representação da tela, “Petite Solange” é apenas um sintoma de uma produção cultural que foi sendo automatizada ao longo dos anos, reproduzindo os velhos cacoetes do cinema independente que procura a “autoria” na enciclopédia dos tempos áureos.
Ropert parece mais mecânico que poético, mas a culpa não é exclusivamente dele, é realmente um todo que parece não viabilizar a circulação de coisas distintas da tríplice: poético, racional e irracional. Pelo menos a cena final pode provocar algum sentimento destoante da áurea que assimila o “blasé” e o “millenial”, um em negação ao outro.