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Pele

Revisita às sinfonias da metrópole

Por Pedro Mesquita

Durante o É Tudo Verdade 2022

Pele

O gênero cinematográfico das sinfonias da metrópole costuma ser associado a um período específico da história do cinema: o cinema mudo. Desenvolvido sobretudo na década de 1920 — e mais especificamente nos anos anteriores ao advento do som —, ele antecede a consolidação dos procedimentos “clássicos” de mise en scène e das narrativas romanescas. Daí a relativa liberdade de que gozaram os realizadores que se aventuraram no gênero: as sinfonias da metrópole não possuem protagonistas humanos; as suas personagens principais são as próprias cidades. Compondo retratos ora enaltecedores — “Berlim – Sinfonia Da Metrópole” (Walter Ruttmann, 1927), “Um Homem com uma Câmera” (Dziga Vertov, 1929) —, ora problemáticos — “Nada Além das Horas” (Alberto Cavalcanti, 1926), “A Propósito de Nice” (Jean Vigo, 1930) — dos principais centros urbanos do mundo, elas registraram com uma precisão ímpar o desenvolvimento tecnológico das grandes cidades globais ao longo das primeiras décadas do século XX.

Façamos, cinematograficamente, um corte que nos leva ao ano de 2022, e o que encontramos ao assistir a “Pele”? A exaltação do progresso técnico inexiste aqui: a sensação predominante registrada pela câmera é a de insatisfação perante os problemas colocados pelo Brasil atual.

O filme propõe um passeio pela cidade de Belo Horizonte através dos muros que a compõem (à maneira do interessante “Mur murs” (1981), de Agnès Varda). Neles, vemos os registros deixados pelos habitantes da cidade por meio de grafites e pichações. É através deles, portanto, que “Pele” realiza o seu estudo da população local: são poucas as vezes em que os enquadramentos do filme focalizam as pessoas que estão nas ruas; ao invés disso, a preocupação principal aqui é a de restituí-las indiretamente por meio da arte que elas fizeram. Através de uma representação metonímica, uma obra de arte se torna a evidência dos indivíduos que a produziram: um grafite de cunho feminista atesta a existência de mulheres feministas, uma pichação que relata um problema social atesta a existência das pessoas que dele sofrem… e por aí vai.

Essa estratégia de representação tem, inegavelmente, a sua força. É de se lamentar, por outro lado, que o diretor não confie totalmente no potencial dessa abordagem e sinta a necessidade de acrescentar a ela uma trilha sonora redundante, que muitas vezes apenas duplica a ideia apresentada pelas imagens (eis um filme que poderia, inclusive, funcionar sem som algum, embora não seja da competência do crítico fazer tais especulações). A trilha musical, mais especificamente, tem um uso incompreensível, tamanha a sua inadequação aos ambientes filmados: os sintetizadores morosos não combinam de forma alguma com eles, criando uma mistura de sensações muito estranha; de modo que a única hipótese aceitável para a sua utilização é que ela suaviza as transições entre os diferentes ambientes sonoros.

“Pele” se estrutura segundo uma dinâmica aditiva de planos. Não existe uma linearidade ao encadeamento de planos do filme (um não “chama” o próximo segundo uma necessidade narrativa, como se costuma ver em filmes de ficção), e eles são no máximo organizados de acordo com temas em comum. Portanto, a experiência de assisti-lo se assemelha, de uma certa maneira, a uma videoinstalação, na qual a fruição de um dado momento não depende de tudo aquilo que veio antes; pode-se entrar e sair dela a qualquer momento. Isso não representa, a priori, um problema; mas ao trazer essa sequência não-linear de eventos para o cinema, uma arte do tempo (e que, portanto, pressupõe a participação do espectador durante a totalidade da duração), o trabalho com o ritmo é essencial para que se garanta o sucesso da obra. “Pele” por vezes peca nesse aspecto, imprimindo na montagem um ritmo acelerado que pouco convida o olhar do espectador ao exame cuidadoso de cada um dos quadros — como acontece, por exemplo, na trilogia “New York Portrait” (1979-1990), de Peter B. Hutton. A montagem do filme não é associativa e dialética como a de Vertov nem mesmo rarefeita e contemplativa como a de Hutton. Marco Pimentel opta, ao invés dessas duas abordagens, por uma rápida adição do maior número possível de planos, como que querendo abarcar a cidade inteira com o seu filme. 

O resultado é levemente enfadonho: “Pele” é uma obra cujo apelo não se compara à dos cineastas mencionados. Se a sua experiência não é exatamente arrebatadora, podemos ao menos admirar o tamanho do corpus com o qual o diretor escolheu trabalhar: o filme é um interessante documento do seu tempo.

2 Nota do Crítico 5 1

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