Pedro e Inês

Amor e loucura com prescrição requerida

Por Fabricio Duque

Durante a Mostra de São Paulo 2018

Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio 2018, “Pedro e Inês”, do diretor português António Ferreira (de “Esquece tudo o que te disse”, “Deus não quis”, “Embargo”), é acima de tudo uma história de amor, que ao ser condicionada através de três tempos, três vidas: passado, presente e futuro, consegue traduzir a eternidade da almas que nos foram acopladas para toda a vida, atemporal que vence as limitações do tempo. A narrativa do longa-metragem acontece pelo visual. A câmera metafísica transfere nossos olhos às personagens. “Pedro e Inês – O Amor Não Descansa” (título complementar divulgado nos festivais brasileiros) evoca a poesia de Manoel de Oliveira com a modernista vanguardista de um espectador de arte. Sono, paixão e reflexos na água. O que assistimos é um exercício etéreo de imagens em fluxo contínuo. Uma epifania que sai da realidade e adentra na encenação do teatro realista. É um filme entre mundos. Entre sensações. Entre percepções do próprio estágio. E a “bravura do Rei que louva Deus”.

Inspirado na lenda portuguesa do Rei Dom Pedro (século XIV), que desenterrou o corpo de sua amada amante Inês de Castro para poder se casar e a tornar rainha depois de morta, e uma adaptação do romance “A Trança de Inês” de Rosa Lobato de Faria, “Pedro e Inês”, uma fantasia de realidades paralelas, confronta música eletrônica (do reino dele) com novas épocas sem identificação, como esquetes de personas e ações encenadas, em que uma história precisa acabar para começar a seguinte. São atos que experimentam, expurgam e ensaiam sobrevivências, coração, pensamento, memória e a “sintonia dos espíritos”. Nós para continuar precisamos deixar de ser espectadores e se tornar marionetes permissivas de uma viagem esquizofrênica. Será as loucuras dele em mudar cena, mudar a história, retornar sem propósito à primeira? Ou será uma ingênua pretensão da própria construção do roteiro? Pedro continua Rei, mas Inês é morta, intercalada e redefinida. Uma marionete. Somos como a Inês. Jogados de um ponto a outro sem livre arbítrio e vontades próprias. Sim, é o conceito do romantismo, aquele que arde e queima de tão intenso. Que faz um deixar de ser para se tornar o outro.

Contudo, inevitavelmente, para manter o equilíbrio neste gênero poético de embevecimento, o realizador precisa de uma responsabilidade maior. O domínio total e absoluto dá trabalho, ainda que com “conselho de vinho”. Em algum momento, o tom tende a ficar meio desengonçado, mesmo “arriscando o inferno por um simples beijo”, meio amador, principalmente por trazer o mundo particular atormentado de Macbeth. É um caminho sem volta. As situações paralelas exigem o caos na cabeça, confundindo o tempo do estar e do não estar. Confuso e incerto, com a inserção de filosofias clichês de botequim e amores sensitivos de “dilacerar as veias”. Mas não podemos negar. O amor, em sua essência, já nasce meio brega mesmo. “Pedro e Inês – O Amor Não Descansa” é uma declaração-carta-filme da beleza e doçuras cósmicas do ato de amar. E assim, este longa-metragem, não precisando, resolve mudar o tom com uma “pateta” luta livre em forçadas aventuras de um mundo cruel (“Não um romance de Cordel”) por reações exageradas, diálogos anti-naturalistas (artificiais, ensaiados e não convincentes), auto-explicações didáticas.

Dessa forma, “Pedro e Inês” pode então ser apreciado como um filme de episódios ou como um filme que necessita que o espectador abra mão de sua sanidade, recebendo a loucura do protagonista e se internando junto com ele no mesmo hospital psiquiátrico, para sentir as vidas de Pedro de Portugal, na Idade Média; Pedro Bravo, no presente; e Pedro Rey, em um futuro distópico. Ao permitir que nossa lógica seja banida, e que devaneios alucinógenos possam nos levar a uma viagem guiada de LSD consciente, então “Pedro e Inês” chega a seu destino final. A um resultado de desconstruir tempo, espaço e existência, expandindo liberdades e sensações de ridículo capitaneadas pela nossa culpa em defesa com a zona de conforto da proteção de nossos sofrimentos. É uma terapia Uma catarse. Uma investida surreal nas memórias vividas e/ou projetadas de um amor vivido e/ou projetado. De algo distante, mas que neste momento está tão próximo e possível. Sim, assistir ao filme é usar e abusar de drogas-sinapses que já estão adormecidas.

Trailer

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