Passeio

A parábola do amadurecer

Por Fabricio Duque

Em processo de lançamento de seu primeiro longa-metragem, documentário “Candango” sobre os cinquenta anos da história do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o brasiliense Lino Meireles comprova em seu terceiro e mais recente curta-metragem, “Passeio” (2016), sua cinefilia. Enraizada, referencial e perceptível aqui, por exemplo, quando deixa “à mostra” três filmes de Quentin Tarantino. Dessa forma, Lino conduz o espectador à ambientação narrativa escolhida. Que é construir uma parábola realista e moderna sobre a universalidade comportamental do amadurecimento. De “garoto” para “homem”. De Claudinho para “Claudão”.

“Passeio” aprofunda sua trama pela “road street” de um dia por um clássico Mustang, de placa BTM-1968 (talvez outra analogia à revolução e à busca da liberdade), pela perspectiva sensorial de novidade do protagonista, como se fosse uma prática metáfora à “aula da vida”, disciplina essa que não se aprende nos livros, tampouco nos filmes. Visto que o que seria mais um dia de escola “dois mais dois”, transmuta-se em um paralelo mundo descoberto. De amor pago (na primeira vez) de uma “mulher de futuro” (que “em vez de consolo, vira presente”), verdades expostas ao “novo membro da gangue” e “cidadãos boêmios”, que “caridosos”, ajudam Claudinho “para não virar besouro na próxima encarnação” e “para querer isso para sempre”.

O curta-metragem caminha por uma organicidade técnica e encenada, indicando pistas sugestivas ao estilo Charles Bukowski, só que aqui mais certinho, mais limpo e mais “vida louca” à moda de herdeiros de diplomatas. Será que este filme esconde algum elemento pessoal de seu realizador? Será que Danilo é a projeção do querer ser de Lino? Ou o contrário?

“Passeio” também acontece pelo tom tarantinesco de “viajar” nos papos estranhos sobre a ameba, carma e a falta de justiça de um cachorro castrado. Claudinho adentra em um universo de adultos que são crescidos demais e que “fazem merdas para apagar outras merdas que fizeram”. “A vida é assim: algumas coisas a gente carrega para sempre, outras a gente deixa para trás. Eu acho”, ensina-se com acaso presente e com perspicácia existencialista de bêbados em insight-epifania. Mas no final, a mensagem é a mesma: “ficar calmo e chamar sua mãe”.

O filme alinha uma inocência perdida de reações sobre o sofrer por amor, ciúmes e a resignação da mesmice da própria vida (de alguém que já tem tudo e que procura no nada desconstruído uma faísca de esperança de tentar sentir o que já perdeu), ainda que o “carma” esteja condicionado e empírico. “Passeio” é uma experiência mise-èn-scene. Uma tradução estética da imagem com o que se pode fazer. Uma possibilidade a seus atores de compartilhar seus monólogos. Um filme que respira Brasília e que pulsa o amor incondicional pela sétima arte, com suas gruas, artifícios da criação e trilha-sonora de Dado Villa-Lobos (Legião Urbana). 

 

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