Partida

Um microcosmo coexistente

Por Vinicius Machado

Durante a Mostra de São Paulo 2019

Em seu curto período democrático, o Brasil nunca foi uma grande referência política. Mas nos últimos anos, a situação degringolou. Em pouquíssimo tempo, houve impeachment, um suposto golpe de estado e uma divisão muito clara entre a esquerda e a direita, fazendo com que as eleições ganhassem tons incivilidade e discussões acaloradas. Amigos deixaram de ser amigos, filhos deixaram de falar com seus pais e pior, a violência tomou conta das múltiplas manifestações contra ou a favor de determinado governo. 

O diretor Caco Ciocler, então, motivado por essas movimentações políticas, resolveu partir para uma jornada. Ao lado de um grupo de cineastas, convidou a atriz Georgette Fadel (de “O Banquete“) – que diz se candidatar à presidência em 2022 para viajar até o Uruguai e passar o reveillon com o ex-presidente Pepe Mujica. Como nem tudo são flores, a viagem conta com a presença de Léo Steinbruch, um empresário que possui opiniões completamente divergentes às de Fadel.

No início de “Partida”, Caco diz à sua equipe para serem livres, falarem do que quiserem, performarem da forma que quiserem e assumirem os papéis que lhes convém, pois assim, no decorrer da viagem, as coisas vão se encontrando naturalmente. No começo as situações são amistosas, com cada um de seus personagens tentando encontrar o seu lugar e sua função ali dentro daquele ônibus. As discussões são feitas de maneira cordial dentro de suas discordâncias e os diálogos são feitos na base da compreensão.

O diretor acerta em cheio quando diz sobre esse encaixe natural. Ao longo da viagem de “Partida”, quando as peças se encaixam, cada um encontra seu tom dentro do próprio discurso e as divergências se acaloram. A chegada a um acampamento pró-Lula parece ser um dos pontos de virada de um projeto sem roteiro, segundo o próprio Ciocler. Léo e Georgette começam a ter indícios de conflitos mais agitados, mesmo que ainda reclusos, no que parece ser um reconhecimento de terreno.

Embora os dois sejam os elementos principais da trama, a equipe também se mostra ativa durante o percurso. Todos possuem seu tempo para brilhar e colocar suas opiniões durante as conversas. Um dos destaques é o operador de áudio português, Vasco Pimentel, em uma das opiniões mais fortes de todo o documentário. “O Brasil foi criado por engano”, diz, ao entrar numa discussão sobre a visão de um estrangeiro sobre o país.

O mais interessante de “Partida” é a evolução da sua narrativa. Há uma consciência muito grande dentro dos arquétipos estabelecidos organicamente pelo filme. Mesmo Léo sendo um dos antagonistas, as discussões tomam rumos em que cada um se torna seu próprio vilão. É válido ressaltar que estamos falando de um experimento social. Georgette, num ápice de exaustão, se desentende com o restante da equipe e demonstra todo seu cansaço de carregar um protagonismo em que ela mesmo questiona, numa jogada interessante de subversão do gênero documental.

Por conta disso, a trama se repete por algumas vezes e carrega a impressão de que o espectador está presenciando uma discussão sem fim, onde ninguém vai ceder. Nada que não tenha sido visto nos últimos meses em qualquer rede social. O filme só se torna uma extensão do mundo real.

Para aliviar esse tipo de tensão, o filme conta com algumas sequências divertidas, como quando eles chegam no Uruguai ou param em uma praia. Colocar os ânimos exaltados no projeto é importante, mas dar um tom de união de uma equipe tão heterogênea também é crucial para não tornar a experiência cansativa para quem está assistindo.

Caco deixa claro que, por mais cru que seja, ainda há vestígios de uma narrativa ficcional. É uma brincadeira saudável com o público, que se questiona por várias vezes se o que está em tela é, de fato, verdadeiro. Georgette vai se candidatar de verdade? Há algo combinado? Pepe Mujica sabe de alguma coisa? A resposta nunca chega ou demora a chegar, mas a graça é exatamente essa, principalmente quando os questionamentos externos atingem também o elenco.

As dissenções tomam ainda mais corpo quando há dúvidas mais intrínsecas a respeito do próprio projeto. Afinal, tudo é feito somente em prol de um filme ou realmente há algo sendo feito para ali em relação à situação política do Brasil. A consciência que, principalmente, Georgette e Caco possuem a respeito disso é um dos grandes pontos. A escolha de adicionar áudios de Whatsapp para construir um enredo em metalinguagem também é um caminho eficiente de trazer esses mesmos conflitos à audiência.

Não há dúvidas de que a força de “Partida” está em sua montagem, que conseguiu tornar um experimento social sem destino, numa jornada curiosa e teoricamente relevante. Não há soluções para problemas, nem um propósito político propriamente dito, e tudo bem. É um filme documental, que adquire tons de road movie e se diverte com essa ambiguidade de narrativa, além de questionar ambos os lados das discussões, refletidas pelos próprios integrantes da equipe. Em tempos difíceis, de divergências capazes de quebrar laços afetivos, a coexistência democrática é essencial, seja nas ruas ou dentro de um ônibus Mercedes O 362, de 77, que eles mesmo denominam como um microcosmo.

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